A cena que marcou o primeiro dia do papa Francisco no Brasil, com o cerco de populares ao carro que levava o pontífice para o centro do Rio de Janeiro, provavelmente se repetirá mais algumas vezes nos próximos dias, como avaliou o professor do Departamento de Ciências da Religião da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) João Décio Passos.
Segundo ele, o pontífice tende a priorizar a proximidade com o povo mesmo que isso coloque em risco a sua segurança. “E isso vai acontecer aqui [Brasil] e em qualquer lugar que ele for”, acrescenta Passos, que afirmou que atitudes como essa confirmam o perfil de Francisco que vem se consolidado desde a primeira aparição pública dele.
“É uma personalidade que costuma surpreender nos gestos, nos discursos e até na postura física. E não foi diferente em sua chegada ao Rio de Janeiro”, relatou o professor da PUC-SP, que também é autor do livro “Papa Francisco: renasce a esperança”. Na opinião dele, o papa não quebrou os protocolos, mas “exerceu esse protocolo com muita naturalidade e espontaneidade”.
Na segunda-feira, a multidão que se encontrava na avenida Presidente Vargas, no centro do Rio, se aproximou do carro onde estava o papa, que contava apenas com a proteção de alguns agentes de segurança visivelmente nervosos.
O veículo ficou preso entre a multidão de um lado e uma fila interminável de ônibus do outro. As grades de proteção, que serviriam para conter o público, só foram montadas a três quarteirões do local. Apesar do tumulto, o pontífice não pareceu se incomodar e manteve o vidro do carro abaixado enquanto centenas de fiéis tentavam chegar perto, tocá-lo e entregar alguns presentes. O veículo papal levou 12 minutos para percorrer um trajeto de 500 metros.
Discursos
A previsão, de acordo com Passos, é que essa simplicidade se mantenha nas próximas aparições públicas do pontífice no Brasil, assim como os discursos ricos em metáforas e voltados não apenas para os católicos. “Não se perde em abstrações, nem teorias e conceitos. Opta por expor problemáticas culturais sociais e políticas de fora para dentro, ou seja, do mundo para o catolicismo e, não do catolicismo para mundo, como Bento 16”, explica.
Diferença também destacada pelo vaticanólogo Giancarlo Nardi. “Como ele disse em seu próprio discurso, Francisco está ‘botando fé’ na juventude para tentar recuperar a Igreja Católica, que tem perdido milhares de fiéis até por causa do comodismo e dos escândalos na Cúria Romano”, relatou ele, ao descrever Francisco como um pontífice mais moderno e mais aberto ao diálogo.
Tais características, como aponta Passos, descrevem um papado muito mais voltado para as questões pastorais do que para a exposição de um “poder sagrado e monárquico.” E, segundo ele, essa afirmação ficou bem evidente quando em seu primeiro discurso, o pontífice se apresentou como “bispo de Roma”.
Primeiro dia
O avião do papa Francisco pousou no Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão), no Rio de Janeiro, às 15h43 de segunda-feira (22) depois de quase 12 horas de viagem desde Roma, na Itália. O avião, da companhia Alitalia, estava com as bandeiras do Brasil e do Vaticano nas janelas da cabine. Francisco foi recepcionado pela presidente Dilma Rousseff, pelo governador do Estado, Sérgio Cabral, e pelo prefeito da capital, Eduardo Paes, entre outras autoridades.


