Campeã de repúdio: como a Argentina uniu o mundo contra si

Lionel Messi comemora gol da Argentina contra o Egito pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026.

Há copas do mundo que terminam com um título e outras que terminam com um diagnóstico. A edição de 2026, decidida no MetLife Stadium com o bicampeonato espanhol, pertence à segunda categoria. Porque, mais do que uma final, o que se viu foi a confirmação de um fenômeno que já não cabe nas quatro linhas: a Argentina, campeã de tantas coisas dentro de campo, tornou-se também campeã de uma espécie de repúdio coletivo que atravessa continentes, idiomas e ideologias.

O caso não nasceu agora. Vem se acumulando desde a Copa América, quando uma transmissão ao vivo feita pelo próprio elenco expôs cânticos racistas e transfóbicos direcionados a jogadores franceses. A cena, gravada e espalhada em minutos, obrigou a Federação Francesa a acionar a FIFA e rendeu à seleção o desconforto público de colegas de clube, como o zagueiro Wesley Fofana, que classificou o episódio como “racismo sem remorso”. O governo argentino, em vez de constranger-se, escolheu o caminho da defesa corporativa: chegou a demitir um subsecretário de esportes por ter pedido desculpas em nome da equipe. Não houve contrição. Houve blindagem.

Essa lógica de naturalização do escárnio reapareceu, ampliada, na Copa do Mundo dos Estados Unidos. A imprensa internacional, que não costuma ter memória curta, tratou de documentar o espetáculo. O The Guardian falou em “racismo sem barreiras”. A revista alemã Focus repetiu o rótulo de “maus perdedores”. Deutsche Welle e The Telegraph descreveram uma seleção “agressiva”, mais afeita ao entorno da bola do que à bola propriamente dita. A Al Jazeera documentou denúncias de torcedores egípcios e cabo-verdianos que relataram agressões físicas e insultos raciais por parte de grupos organizados da torcida albiceleste. O Los Angeles Times, olhando para a América Latina, identificou um ressentimento antigo de vizinhos como o México contra o que chamou de “complexo de superioridade eurocêntrico” argentino.

Dentro de campo, o roteiro não foi menos constrangedor. Na decisão, Leandro Paredes agrediu um adversário espanhol, e o time inteiro deu as costas durante a comemoração alheia — um gesto de pequenez que nenhuma explicação técnica consegue disfarçar. A seleção que mais cometeu faltas no torneio, curiosamente, não teve uma única chamada relevante do VAR contra si. A FIFA abriu investigações. O mundo, cansado, escolheu torcer contra: Cabo Verde, Suíça, Inglaterra — qualquer camisa que não fosse a azul e branca virou motivo de festa alheia.

É nesse cenário que o Brasil oferece seu capítulo mais melancólico. Na Rua da Mooca, em São Paulo, brasileiros com a camisa da Argentina choraram como se tivessem perdido algo próprio. Bandeiras, tambores, Fernet com Coca-Cola e o coro entoando “é Argentina, é Milei, é Bolsonaro” — a frase resume, com precisão quase didática, o fenômeno que se instalou em parte do imaginário nacional. Não se trata mais de admiração esportiva por Messi, mas de uma identificação ideológica que atravessa o gramado: idolatria por um camisa 10, desprezo pela própria seleção, simpatia por Javier Milei e, por extensão natural, adesão ao bolsonarismo.

Há uma explicação geracional para isso, ainda que insuficiente como desculpa. É o fenômeno dos “Enzos” — jovens formados nos jogos de videogame em que Messi era, por mais de uma década, a peça insubstituível de qualquer time competitivo. Cresceram montando escalações argentinas para melhorar a “química” virtual do elenco e aprenderam a torcer por tabela. Só que o roteiro de Ultimate Team não previa o que aconteceu na final real: um Messi apagado, tentando provocar a expulsão de um adversário de forma pouco elegante, enquanto a Espanha dominava o jogo do início ao fim.

O que a Mooca chorou, portanto, não foi uma derrota argentina. Foi a derrota de uma fantasia identitária construída sobre a rejeição de si mesmo — o vira-latismo, categoria que Nelson Rodrigues cunhou décadas atrás e que continua, obstinadamente, encontrando novos hospedeiros. Torcer contra o próprio país, idolatrar um símbolo estrangeiro associado a discursos xenófobos e vibrar com escândalos de racismo como se fossem meros detalhes de um espetáculo esportivo diz menos sobre a Argentina do que sobre uma fratura brasileira que o futebol apenas escancarou.

A Argentina pode perder títulos, técnicos, gerações de craques. O que dificilmente perderá, ao menos no curto prazo, é essa capacidade rara de unir o mundo inteiro contra si — e de, paradoxalmente, seguir encontrando, no Brasil, quem chore suas derrotas como se fossem próprias.

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