Durante a ditadura militar o Brasil instituiu uma lógica perversa segundo a qual todo cidadão que ousasse discordar do regime era automaticamente rotulado de “subversivo”. Essa classificação não se limitava a um rótulo ideológico: ela funcionava como sentença.
Não existiam freios jurídicos, éticas ou morais para a ação do Estado contra aqueles definidos como inimigos internos. Sob o disfarce da chamada “legalidade autoritária”, o regime promoveu uma repressão sistemática sustentada pela censura, pela tortura e pelas prisões arbitrárias. O desaparecimento forçado tornou-se prática recorrente e muitos brasileiros seguem até hoje, sem nome, sem corpo e sem justiça.
A acusação de comunismo operava como instrumento de eliminação política. Não exigia provas, nem sequer coerência: bastava discordar, questionar ou resistir. As Forças Armadas foram convertidas em aparato policial-ideológico, empenhadas numa cruzada anticomunista que se consolidou como política de Estado. A crítica passou a ser tratada como crime; o pensamento autônomo como ameaça. Instalou-se uma guerra psicológica permanente, cujo objetivo era o medo, o silêncio e a obediência.
A violência empregada contra os chamados subversivos não conheceu limites. Homens e mulheres foram sequestrados, torturados e assassinados; grávidas e crianças também foram atingidas pela barbárie institucionalizada. A tortura não foi um desvio, mas um método; uma técnica deliberada de destruição física e moral, destinada a humilhar e desumanizar. Inúmeros inocentes sofreram suplícios atrozes, enquanto o Estado violava, de forma sistemática, o direito à liberdade política e a dignidade humana.
O mais alarmante, contudo, é constatar que esse passado não foi definitivamente superado. A extrema direita que hoje se organiza no país, demonstra a inequívoca nostalgia do autoritarismo.
Reatualiza o discurso do ódio, chamando opositores de “esquerdopatas” ou comunistas, numa tentativa grotesca de manter viva a retórica do inimigo interno. O objetivo permanece o mesmo: criminalizar a divergência e corroer os fundamentos da democracia. Voltam a ser tratados como subversivos aqueles que resistem às ilegalidades, denunciam abusos e se recusam a aceitar a normalização da violência institucional.
Promove-se, de forma deliberada, uma política do esquecimento. Estimula-se uma verdadeira esquizofrenia da memória coletiva, relativizando crimes, negando a tortura e tentando reescrever a história sob a ótica dos algozes. Nesse novo autoritarismo de feição ultraconservadora, pensar diferente continua sendo perigoso. E, mais uma vez, quem se recusa a se submeter passa a carregar o velho rótulo de comunista.
Esse tema aparece bastante na música e na cultura. Um exemplo clássico é o romance “1984”, de George Orwell. Na história, o governo controla tudo, até pensamentos das pessoas. Existe até o “crime de pensamento”, onde só de pensar contra o sistema já é considerado crime. Na música é usado de forma crítica em duas canções brasileiras bem conhecidas: “Pra Não Dizer que Não Falei da Flores”, do nosso conterrâneo Geraldo Vandré, e “Cálice” de Chico Buarque e Gilberto Gil. Que esse tempo em que pessoas eram punidas, não só pelo que faziam, mas pelo que diziam ou até mesmo acreditavam, nunca mais volte.