Ainda na seleção dos parágrafos mentais para cumprir a pauta, deparo-me, na agenda eletrônica semanal e quinzenal, com os compromissos que devo assumir, funcional e pessoalmente. Estabelecer o emparelhamento como atividade, de horários plausíveis e possíveis. Justificar quando, devido ao fortuito e à forca maior. Preservando e sobrepondo a lhaneza sobre a impaciência, sobre a vaidade infrutífera. Vem à mesa improvisado envelope, destreinado na velha alegria de receber publicações raras ou raríssimas, já nessa fase extintiva de material impresso. Livros e jornais jogados janela à dentro ou dormitando no terraço.
Com essas correspondências, pude conhecer centenas de sebos do país todo, publicações nacionais muito antigas, estrangeiras, muito desconhecidas, raridades e preciosidades. Até livros rejeitados pelo autor ou, infelizmente, pelo público mais incerto. Considero preciosidades aquelas cujo mérito científico ou literário escaparam ao senso comum ou sucesso incomum, alvo de furtivos interesses. E designo preciosidades aquelas que dificuldades editoriais suplantaram o autor e o meio. “A tribo circundante”. O titulo que chegou é a epígrafe biografada. O Autor extremamente respeitado, a seu tempo melhor homenageado, fora de sua terra e desconhecido às novas gerações; até em seus passos em sua própria terra. Fora dela, publicou quase tudo enquanto esteve realmente fora, de modo desprendido e probo, não bastando trocar letra para obtenção de um empréstimo e conseguir publicar um livro.
Propriamente uma tese de concurso de admissão à docência de uma cadeira de Filosofia de Direito. Não consegui apurar a data a se confundir com outra celebrada obra de Introdução ao Direito, em 1933, a qual li e reli por necessidade de organizar meu pensamento, dado o hábito de considerar quase a importância a aprendizagem introdutória. Fazendo as contas, realmente, fora a obra desse ano, mencionada passo a palavra a João Lyra Filho, a quem saudei, certa vez, na homenagem dada em 1977, na Faculdade de Direito da UFPB (tribuna cedida pelo colega Cleanto Gomes, em nome dos alunos daquele saudoso ano):
“Meu primeiro encontro com Alcides Bezerra constituiu o episódio de profundo constrangimento para mim. Ocorreu há seis anos. Exercia eu, esse tempo, a chefia de uma carteira de empréstimo sob consignação de vencimentos, e uma tarde, no meu gabinete, recebi das mãos do contínuo a carta de pessoa amiga, que me convidava a acolher o portador, com quem deveria conversar e a quem seria natural que atendesse. Era ele, Alcides Bezerra, o portador. Fui encontrá-lo, no meio de muita gente, no amplo salão que dava acesso à sala onde trabalhava. No meio de muita gente humilde que ali estava, para preencher propostas de empréstimo, gente do povo, pobres funcionários mal remunerados que, de ordinário, pleiteavam dinheiro para matar a fome dos filhos, Alcides Bezerra confundia-se. E não é que ele era diretor do Arquivo Nacional! Em louvor de sua memória não é demais para se quebre o sigilo com que devo guardar quantas confissões recebidas por força da função. Auxílios pleiteavam o empréstimo de dois contos de reis para custear as despesas de impressão de tese com que se inscreveram no concurso para provimento da cadeira de Introdução à Filosofia do Direito, aberto na Universidade do Rio de Janeiro. Acreditai, senhores acadêmicos, que constituiu no acanhamento a oportunidade que o destino me deu para atendê-lo. A maneira com que realizou essa prova, maior do que todas, no domínio do espírito, é fácil de ser apurada, porque ele se classificou, em segundo lugar, sendo apenas vencido por outro de não menor estatura intelectual”.
Essa homenagem é trecho incorporado aos nomes de Afonso Costa, Cumplido de Magalhães, Fócion Serpa, M. Nogueira da Silva, Modesto de Abreu e Oton Costa da Academia Carioca de Letras, em memória de Alcides Bezerra, bananeirense dos maiores da Filosofia Brasileira, em 1938).