“O eleito”

Em 1985, Lobão em parceria com Bernardo Vilhena compôs “O eleito”, uma canção que retrata a postura de muita gente que milita na política. Pessoas que se acham predestinadas a serem os maiores, aqueles que estão acima de tudo e de todos.

“Ele é esperto e persistente/Acha que nasceu para ser respeitado/Ele é incerto e reticente/Acha que nasceu para ser venerado”. Normalmente é assim que se comportam os déspotas, os tiranos, aqueles que têm vocação para o autoritarismo. Julgam-se os mais espertos, donos da verdade, sabem mais do que todo mundo, tudo o que os outros falam ou fazem “é bobagem”. Persistem nas suas determinações, mesmo que contrariem regras básicas de respeito ao próximo. Têm a convicção de que todos devem obedecê-los sem contestação. São surpreendentes, incertos, difíceis de prever o que estejam planejando fazer para alcançarem seus objetivos. Reservados quando seus interesses precisam ficar em sigilo, por conveniência estratégica. Desejam que todos ao seu redor os reverenciem como se fossem divindades na terra.

“O palácio é o refúgio mais que perfeito/Para os seus desejos mais que secretos/Lá ele se imagina o eleito/Sem nenhuma eleição por perto/Ele é o esperto, ele é o perfeito/Ele é o que dá certo/Ele se acha o eleito”. Os que se acham poderosos, donos do destino dos outros, normalmente gostam de se encastelar em palácios, com toda a pompa que dignifique a condição de majestade. Lá é o lugar mais adequado para maquinarem secretamente ações que possam vir em seus próprios benefícios. Na suntuosidade de suas moradias ou locais de trabalho, cada vez mais se veem como “os eleitos”, mesmo desrespeitando o sentimento da maioria. Não conseguem enxergar defeitos em si mesmos, são perfeitos.

“Seus ternos são bem cortados/Seus versos são mal escritos/Seus gestos são mal estudados/A sua pose é militarista”. Andam sempre vestidos impecavelmente, principalmente quando em tempos pretéritos andavam descuidados na indumentária. Seus discursos, ainda que convincentes pelo poder da retórica, são mal escritos, porque o que menos importa é a correção do bem escrever, mas sim o poder de persuadir nas afirmações, muitas vezes demagógicas e desprovidas de verdade. As atitudes, mesmo planejadas com o intuito de impressionarem, são mal estudadas, porque crêem que tudo o que façam é aceito pelos que os observam. Na pose, a marca militarista, impondo ordens e estabelecendo regras em que não admitem insubordinações, autoritários por vocação.

“Ele se acha o intocável/Senhor de todas as cadeiras/Derruba tudo para ficar estável/Ele não está aí para brincadeira”. Senhores absolutos do poder de mando não reconhecem a possibilidade de serem atingidos em nada, se acham blindados a qualquer ataque, intocáveis. Pensam ter domínio sobre todos e sobre tudo. Desprezam a ética e a moral quando querem preservar a sua força e sua autoridade para garantirem a qualquer custo, a estabilidade da situação de comando. Não estão para brincadeira, jogam o jogo sujo se for preciso, desde que se garantam no apogeu, no trono, na posição de soberano.

“E o tempo passa quase parado/E eu aqui sem a menor paciência/Contando as horas como se fossem trocados/Como se fossem contas de uma penitência”. Lobão, na sua letra, se coloca agora na condição de subalterno, subordinado, súdito, comandado, para afirmar que lamenta ver o tempo passar como se nada mudasse, tudo parado, sem alterações que tragam esperanças de se libertarem do arbítrio indesejado. E ficam na expectativa de que a cada instante haja a possibilidade de que a situação sofra solução de continuidade, e a opressão vivida tenha um fim. Permanecem pagando o sacrifício da humilhação e jugo, como se fosse uma penitência, com a ansiedade de reversão do quadro.

“E tudo parece estar errado/E nesse caso o erro deu certo/Foi o que ele disse ao pé do rádio/Com a honestidade pelo avesso”. Sem qualquer sombra de dúvidas, a constatação é de que tudo está errado, quase sempre como conseqüência de equívocos cometidos por exagero de confiança e de aposta nos propósitos proclamados enquanto aspiravam o poder. No entanto, é doloroso ouvir na mídia afirmações que não condizem com a realidade tão observada, porquanto as práticas são o reverso dos conceitos de honestidade e austeridade que devem imperar o exercício de governo.

• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.

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