Ainda há um certo preconceito em relação a música chamada “brega”. Ela é, quase sempre, desconsiderada pelo público elitista e intelectualizado. Odair José é uma das grandes expressões desse gênero musical. Na década de setenta, em plena ditadura militar, se consagrou ao lançar músicas que fugiam ao perfil das canções de protesto. No entanto, teve músicas proibidas pela censura porque, segundo eles, estimulavam um comportamento social que não condizia com os bons costumes e a moral. Foi o caso de “Eu vou tirar você desse lugar”, composta em 1973. Na sua letra o “eu lírico” narra a sua paixão por uma prostituta e resolve tirá-la daquela vida.
“Olha, da primeira vez que eu estive aqui/Foi pra me distrair/Eu vim em busca do amor”. O personagem que canta a música fala que conheceu a mulher por quem se apaixonaria, na primeira vez em que esteve naquele prostíbulo onde ela atuava como profissional do sexo. Sua intenção era unicamente se divertir, viver uma noitada de cabaré, uma farra em que saciaria seus desejos carnais.
“Olha, foi então que eu te conheci/Naquela noite fria/Nos seus braços, meus problemas esqueci”. Relembra que foi numa noite fria que esteve na cama com ela. E no prazer que lhe proporcionou na relação sexual, se viu afastado do seu cotidiano, longe dos problemas da vida lá fora. Sentiu-se aliviado das tensões do seu dia-a-dia.
“Olha, da segunda vez que estive aqui/Já não foi pra me distrair/Eu senti saudades de você”. Confessa que seu retorno àquele ambiente não foi mais pela simples vontade de viver uma noite de distração, mas porque sentiu a falta dela. Na verdade voltava para revê-la, porque estava morrendo de saudades.
“Olha, uuhh, eu precisei dos seus carinhos/Eu me sentia tão sozinho e já não podia mais te esquecer”. Não se envergonha de dizer que estava carente das suas carícias, do seu jeito de fazer amor. Longe dela, percebeu que estava só e que sua imagem não saia do seu pensamento. Ela havia conquistado seu coração.
“Eu vou tirar você desse lugar/Eu vou levar você pra ficar comigo/E não me interessa o que os outros vão pensar”. Comunica sua decisão de tirá-la daquele local e dar-lhe uma nova vida. Quer tê-la como sua companheira, mulher, exclusivamente sua. E pouco se importava com a repercussão que teria essa sua determinação. Não tinha qualquer preocupação com as repreensões que viesse a sofrer pela sociedade.
“Eu sei que você tem medo de não dar certo/Acha que o passado vai estar sempre perto/Eque um dia eu vou me arrepender”. Tem ciência de que ela ficará na dúvida, sem acreditar que era verdadeiro esse amor proclamado. O receio de dar um passo errado, porque carregaria para sempre esse estigma tão forte da sua vida devassa, e isso no futuro poderia dar causa a um arrependimento da parte dele.
“E eu quero que você não pense em nada triste/Porque quando o amor existe/O que não existe é tempo para sofrer”. Solicita que ela afaste qualquer sentimento de tristeza. Ele quer fazê-la feliz. Argumenta que o amor quando chega com toda sua intensidade, nunca permitirá que haja tempo para o sofrimento.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.