Outubro/1968: Assembléia Geral Permanente

 

 

Os estudantes mantinham-se em Assembléia Geral permanente, concentrados no Diretório Acadêmico da FAFI – Faculdade de Filosofia, onde instalaram o QG do movimento, planejavam e acompanhavam a greve decretada e recebiam notícias sobre as gestões desenvolvidas no sentido de serem postos em liberdade seus colegas ainda detidos em São Paulo. Por lá passavam, a todo instante, lideranças sindicais, membros do clero paraibano, artistas, intelectuais e professores universitários, prestando solidariedade à luta pela libertação dos colegas presos.

Ao chegar ao local, acompanhado da esposa, o professor Otacilio de Queiroz, pai do presidente do DCE, Everardo Queiroz, um dos estudantes detidos em São Paulo, foi efusivamente aclamado pelos presentes. Em declarações prestadas à imprensa no momento, afirmou: “Não estou na FAFI para defender meu filho, mas todos os estudantes em sua luta contra a opressão. Não aceito os velhos que não compreendem, ou não querem compreender, a juventude em sua luta pelas transformações da sociedade. Não quero ver meu filho solto, se os outros estudantes continuarem presos”.

A professora Beatriz Pontes, do departamento de geografia da UFPb, também em visita aos grevistas, declarou: “É preciso ter coragem e não se acovardar diante do que está acontecendo. Conclamo a todos os colegas professores universitários a assinarem um manifesto de solidariedade aos estudantes”.

Os universitários campinenses, que decidiram não entrar em greve, mas também permaneciam em assembléia geral permanente, lançaram manifesto nos seguintes termos: “Estão espalhando pela cidade que os estudantes foram soltos. Isto é pura mentira. O que está acontecendo é que os estudantes estão sendo mandados para os seus respectivos Estados. Mas estão vindo presos. E vão ficar presos aqui na Paraiba.
O governador diz que soltou os estudantes. É mentira o que os políticos estão dizendo. Eles dizem isso para ganhar a simpatia do povo.
Por isso é que a gente deve continuar nossa luta pela liberdade de todos os estudantes. É uma luta contra a repressão policial da ditadura. Nossa luta é também para que nossas escolas não sejam entregues ao imperialismo americano. Também nós lutamos contra esse governo que massacra o povo. E só deixaremos de lutar quando conseguirmos a vitória final. Vamos denunciar a demagogia do governador e de um bando de corruptos que andam por aí espalhando mentiras”.

As lideranças estudantis continuavam com o discurso de que seus colegas não voltariam em liberdade e permaneceriam presos quando retornassem à Paraíba. Esse discurso seria alterado quando da chegada dos companheiros, porque, ao contrário do que afirmavam, todos os vinte e cinco estudantes da delegação paraibana no Congresso da UNE, voltaram às suas cidades de origem em inteira liberdade.

A UEEP – União dos Estudantes do Estado da Paraiba e o DCE – Diretório Central dos Estudantes, representados respectivamente por Hélcio de Oliveira e Everaldo Soares Júnior, também fizeram divulgar um manifesto convidando a população para uma grande manifestação pública programada para o dia vinte e três.
“Repudiamos as jogadas oportunistas em nosso Estado, quando tentam jogar as famílias dos colegas contra nós, e, ao mesmo tempo, se dizem nossos aliados. Não queremos travar polêmica, não daremos esta chance aos oportunistas. Ganharemos a opinião pública lutando nas ruas, mostrando ao povo a força do movimento estudantil. Os intelectuais, o clero, os bancários, os operários, os camponeses e as donas de casa, já começam a se integrar na luta conjunta contra a opressão, lançando manifestos e participando de passeatas de protesto contra a repressão. A UNE não se extinguirá com este ato de violência, porque ela representa o estudante em luta, e ela é a nossa bandeira, o nosso guia de ação. Por fim, convocamos toda a população de João Pessoa a, nas ruas, manifestar seu protesto ao atual estado das coisas, participando de uma concentração popular no próximo dia vinte e três”.

No início da noite do dia dezoito de outubro uma emissora de rádio noticiava que nas próximas horas estariam chegando a João Pessoa os estudantes presos em São Paulo. A notícia fez com que muita gente se dirigisse à FAFI para recepciona-los. Permaneceram, em clima de ansiedade, até as vinte e três horas, quando perceberam que tudo não passava de um rebate falso. Na oportunidade a bandeira da UNE, hasteada na frente da Faculdade, foi retirada por agentes da Polícia Federal. No entanto, momentos depois, entoando o Hino Nacional e a música de Geraldo Vandré “Para não dizer que não falei em flores”, os estudantes que ali se faziam presentes, recolocaram a bandeira da entidade estudantil, afirmando: “A polícia pode tirar quantas vezes quiser esta bandeira, porque a este lugar ela voltará. Não nos faltarão nem pano, nem dinheiro, nem disposição, nem coragem, para aí recoloca-la”.

• Esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
• Comentários e informações adicionais devem ser encaminhados para o email: iurleitao@hotmail.com

 

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