A hegemonia de Cássio na Oposição




BRASILIA – Em tese, a primeira impressão, diante da desistência de Cícero Lucena de disputar o Governo do Estado, é de que enfim a pré-candidatura de Ricardo Coutinho passa a ter forte musculatura estrutural em face do significado e tamanho do PSDB no Estado.

Mas, em que pese a performance pessoal do ex-prefeito de João Pessoa, o esperado contexto político – partidário frente à atitude de Cícero somente reforça a condução hegemônica que o ex-governador Cássio Cunha Lima passa a ter no processo, que já tinha, por ter melhor domínio de cenário e imagem estadual em proporção bem mais consistente do que Ricardo.

Sem que se aperceba, o mito a partir de João Pessoa passou a depender decisivamente de Campina Grande, melhor dizendo de Cássio e, numa escala seguinte, do senador Efraim Morais em nível tamanho que não consegue mais sobreviver eleitoralmente na atual disputa para o Governo sem a força do grupo Cunha Lima.

Sem tirar nem por, Ricardo passou a ser refém da estrutura e da liderança de Cássio, algo que precisa ser examinado ao longo dos próximos tempos porque o componente da vaidade do ex-prefeito deve estar roendo muito seu juízo ao atestar a dependência agora narrada.

Ora, se ao longo dos primeiros anos de comando na Capital Ricardo era a expressão do “mando, quero e posso” perder essa condição por absoluta inabilidade do próprio ex-prefeito certamente que motivará reflexões particulares dele sobre como conviver com essa realidade em desvantagem.

A pré-campanha, em síntese, está mostrando que Ricardo não é tão forte na costura política quando na imagem positiva construída na política porque, diferentemente de Cássio assume um jeito distante de construir relações e isso é muito danoso, sobretudo na realidade interiorana onde as pessoas costumam abusar do afago ao líder que segue.

Em síntese, a conjuntura constrói a consolidação de um deslocamento de importância gradual de Ricardo para Cássio fazendo com que o principal candidato majoritário como puxador de votos seja o pré-candidato a senador, diferentemente da realidade do governador José Maranhão onde os outros nomes da chapa dependem do líder do PMDB.

Cássio, como se vê, dá as cartas no jogo da Oposição.

Para onde caminha Cícero

A expectativa do ato programado para esta sexta-feira, na OAB, tende a projetar muitas especulações, mas dificilmente Cícero Lucena deverá sair jogando pedras.

Pode até expor queixas dos companheiros lideres de partido, mas a Cícero pouco restará na relação interna com o PSDB porque, apesar dos lamentos, tudo está sendo construído a base de conversas internas entre ele, Cássio e a direção nacional.

Agora, resta saber como ele se comportará diante da decisão de não votar em Ricardo Coutinho.

A vaidade como elemento de crise

Em 1994, a disputa para o Governo registrou cenas de bastidores entre o então candidato a governador Antonio Mariz e o líder  governador Ronaldo Cunha Lima, ainda envolvendo Humberto Lucena, José Maranhão e o então ascendente Cássio, em nível que muitos na Paraiba ainda desconhecem.

A começar pelo vice porque Ronaldo queria Gilvan Freire ou Dunga, então mais próximos a ele, só que Mariz optou por Maranhão porque sabendo de sua fragilidade física (ele foi candidato já tendo câncer) considerava o então deputado federal de Araruna nome mais próximo de sua confiança e de certa forma em condições de segurar a supremacia do Poeta, que já preparava a ascensão do jovem talento chamado Cássio.

A campanha para o Governo em 1994 foi repleta de crises internas, não apenas por conta das questões de estratégias, mas porque a crise de vaidade entre os lideres do PMDB à época só não extravasava para fora em face da habilidade existente de um personagem chamado Humberto Coutinho de Lucena.

Foi esta tal crise de vaidade que, mais tarde, criou a emulação e o confronto entre Maranhão e Ronaldo (depois da morte de Mariz) gerando rompimento mais adiante até chegar aos dias de hoje.

Mas, registre-se que Mariz/Maranhão somente reagiram quando assumiram o Poder, mesmo solidários com Ronaldo, mas sem aceitar o asfixiamento político pois, como se viu, acabou em rompimento.

O caso Ricardo é diferente, mas vamos ver até onde e quando ele e sua vaidade vão conviver com a hegemonia de Cássio, fruto da competência do ex-governador.

Fatos como estes vamos trazer para reflexão porque em muitos processos há valores que se repetem ou não, com diz o poeta Caetano.

ULTIMA

“Minha garganta pede um copo d’água/

E os meus olhos pedem teu olhar…”

 

 

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