Classe média à direita

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Uma das razões pelas quais a classe média se posiciona ideologicamente à direita é o desejo de manter seu grupo social em uma situação de superioridade em relação às classes populares. As manifestações reacionárias protagonizadas por pessoas consideradas “classe média” também denotam uma postura saudosista do período em que vivemos sob um governo autocrático. Outras características que evidenciam o viés ideológico da classe média são o conservadorismo e o moralismo seletivo, muitas vezes apoiados em um fundamentalismo religioso.

Percebe-se um medo dos discursos progressistas voltados à promoção da inclusão social. Um bom exemplo foi a aprovação, em 2013, da PEC das Domésticas, que garantiu às trabalhadoras domésticas os mesmos direitos trabalhistas assegurados aos demais empregados com carteira assinada. A tradição escravocrata da burguesia brasileira gerou uma reação de desagrado diante dessa decisão. A democratização das universidades públicas, com a adoção de políticas como cotas raciais e sociais para alunos de escolas públicas, igualmente provocou descontentamento na classe média. Causa incômodo ver seus filhos estudando, na mesma instituição, com pessoas da base da pirâmide social, assim como viajar no mesmo avião que integrantes das classes populares. Costumam dizer que os aeroportos se transformaram em rodoviárias. O ex-ministro Paulo Guedes chegou a declarar, em uma entrevista, que “o dólar baixo estava permitindo que todo mundo pudesse ir para a Disney, até as empregadas domésticas”, numa explícita demonstração de preconceito social.

O interessante é que essa classe média é formada por indivíduos que sobrevivem da venda de sua força de trabalho. São assalariados, mas comportam-se como se fossem ricos, com independência financeira e ganhos oriundos de seus próprios negócios. Entretanto, fazem questão de exibir uma distinção social que lhes proporciona uma sensação de superioridade econômica e moral em relação à população de baixa renda. Por isso mesmo, aderem às ideias da direita, contrárias às políticas sociais, por temerem a perda de ganhos materiais. Explorada pela elite dominante, a classe média não reclama do custo da saúde pública ou da escola privada, ainda que viva com a “corda no pescoço”. Vemos casos em que ela comunga com a classe rica em atitudes que refletem ódio aos pobres. Votam contra qualquer representante das classes populares que possa ocupar cargos de comando na política.

A classe média brasileira entra em pânico com a possibilidade de perder seus padrões básicos de consumo e acesso a bens culturais. Por isso, luta desesperadamente para que “sejam mantidas as estruturas de poder que limitem o desenvolvimento de uma verdadeira democracia social”, conforme afirma o sociólogo Jessé Souza. A direita manipula mentes vulneráveis para impor a compreensão de que as transformações sociais representam uma ameaça ao status quo da classe média, estimulando uma relação conflituosa com a esquerda. A classe média não é rica, mas se sente ameaçada por políticas que permitam a ascensão econômica dos grupos historicamente situados na base da pirâmide social. Como bem diz Jessé Souza: “Hoje, todo pobre se acha classe média, a classe média se acha elite e a elite fica invisível, e é o que ela quer. Para a elite, isso é ótimo, porque é o principal dispositivo de poder e ninguém vê o que ela faz.” E a direita se aproveita dessa situação para construir suas estratégias de manipulação política.

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