De onde venho? Venho de Cajazeiras, de Sousa, de Patos, de Campina Grande, de Jenipapo, e de todos os outros lugares por onde meus pais passaram. Afinal, nasci e morei a vida inteira em João Pessoa, mas é deles que eu venho. É através das suas histórias que surge a minha história. Através dos seus nomes, surge o meu nome.
O conceito de “contar” a história e “construir” um nome sempre foi muito importante na minha família. Tão importante que escolher a narrativa para esse texto foi uma tarefa difícil. Por isso, resolvi contar essa história em duas partes.
Começo pela família paterna.
“Personagens deste enredo, sentimo-nos envolvidos num momento de vida que nos remete a um mundo desconhecido para a maioria, mas que nos enche de encantamento pelo entusiasmo com que são retratadas as paisagens que se fazem cenário de cada tempo e reforçam o desejo de transmitir às gerações que nos sucedem o conhecimento da base e a razão do que somos.” Essas foram as palavras do meu pai na orelha do livro biográfico que meu avô escreveu. “Inventário do Tempo” foi uma viagem por seu passado, que mostra a formação da nossa árvore genealógica. Apareço na página 411 de totais 414. Foram necessárias 411 páginas de história para que eu surgisse, e apenas 3 páginas para que uma jornada se encerrasse.
Meu avô, dentre seus muitos estudos e interesses, era genealogista, e gostava bastante de entender de onde as pessoas vinham. Estudou o passado da minha mãe, fez questão de relatar o passado do meu pai, e se preocupou bastante com a formação dos nomes dos membros familiares. O primeiro sobrenome deveria ser o do avô materno, seguido do sobrenome da avó paterna, e por último, o sobrenome do avô paterno.
Domiciano Cezar Leitão.
Essa seria a composição do bebê. Agora faltava o nome.
O que me leva à família materna.
“Meu amor, decidi começar a escrever este diário, para que um dia você possa ler e saber como foi a sua vida, desde a concepção, e sentir o quanto você foi desejada. Peço a Deus que me conceda a graça de te merecer.” Brinco que minha mãe nasceu não só para ser mãe, mas para ser a minha mãe. Ela ansiava tanto o meu nascimento que colecionou diversos diários de gravidez e diários do bebê, que formavam, à sua própria maneira, um “Inventário do Tempo”.
Antes e depois do meu nascimento, no dia 22 de Junho de 1998, na maternidade Lady Center, tudo foi relatado com afinco pela minha historiadora informal. Ela não queria cesária, mas a obstetra queria viajar para o São João e marcou a cirurgia mais de 15 dias antes do previsto, me tornando uma bebê prematura. Quando nasci, não chorei, foi preciso que a equipe me batesse para provocar o berreiro, o que corrobora as mais de 10 vezes que minha mãe escreveu as palavras “calma” e “preguiçosa” nos diários.
Ela conta que não gostava da ideia de um nome com apelido, pois acreditava que os apelidos “destruiam” os nomes. Queria que eu me chamasse Lais. Curto e, claro, sem apelidos. Mas esse não era o plano do resto da família. Meu pai queria Nataly, meu avô Clélia Brasília, minha avó Roncalli em homenagem ao papa… As sugestões eram muitas, como acontece em famílias grandes.
Sem enxergar as possibilidades de apelido em Vanessa, ela o sugeriu como carta branca pro meu pai, que aceitou e assim foi. Assim sou.
Com apelidos, com nome e com história.
Vanessa Domiciano Cezar Leitão (*)
A autora é filha de Tatiana Domiciano e Ruy César Leitão
