O professor Eder Dantas comenta em novo artigo sobre o filme Marighela, de Wagner Moura, lançado nesta semana nas salas de cinema do país.
Ele fala sobre a história do líder político e o enredo do filme.
Leia:
As razões de Marighela
Éder Dantas*
Estreou nos cinemas, em nível nacional, o filme “Marighela”, do diretor Wagner Moura, e estrelado pelo ator, cantor e compositor Seu Jorge, Bruno Gagliasso, Adriana Esteves, Maria Marighela, o pastor Henrique Vieira e o paraibano Luis Carlos Vasconcelos, dentre outros. O filme está cercado de muita polêmica, colocando em pé de guerra a Agência Nacional de Cinema – Ancine bolsonarista e os produtores da película cinematográfica, que passou a ser exibida no Brasil dois anos depois de fazer sucesso no Festival de Berlim e outros eventos internacionais. A extrema-direita e seu governo não escondem o ódio que sentem pela produção.
Marighela era baiano, nascido em 5 de dezembro de 1911, em Salvador, tendo sido assassinado em 04 de novembro de 1969, em São Paulo, por homens do Departamento de Ordem Política e Social – DOPS. Ele foi um dos sete filhos de uma família pobre, Foi professor, poeta, ativista político, escritor e Deputado Federal constituinte pelo Partido Comunista Brasileiro – PCB em 1946. Em 1948, foi colocado na ilegalidade, junto com os demais militantes comunistas, no contexto da “guerra fria” entre os Estados Unidos e a URSS.
A militância clandestina, portanto, não foi uma opção para o político baiano. Enquanto pode, Marighella fez do parlamento seu espaço de atuação. Foi preso durante a ditadura do Estado Novo, atuou com plena liberdade apenas durante dois anos, ficando semiclandestino durante a maior parte da República Populista (ajudando a organizar os trabalhadores) e retomando a vida de perseguido político pela ditadura civil-militar, instalada em 1964. É importante destacar que, nas décadas 1950 e 1960, partidos comunistas alinhados a Moscou adotaram a chamada “via pacífica para o socialismo”. Este era o caminho trilhado por ele, até aderir à guerrilha urbana.
O político baiano optou pela luta armada em 1967, decepcionado com a estratégia pacifista do PCB, de onde foi expulso e em fevereiro de 1968, sob influência da revolução vitoriosa em Cuba, ajuda a fundar o 8grupo armado Ação Libertadora Nacional – ALN, que no ano seguinte ajudaria a organizar o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, considerado fundamental para a libertação e sobrevivência de diversos presos políticos. Este episódio é retratado no livro O Que É Isso, Companheiro?, do jornalista Fernando Gabeira.
O ano de 1968 foi marcado pelo endurecimento do regime, com a publicação do famigerado Ato Institucional Número 5, o AI-5, no governo do general Arthur da Costa e Silva, com o fechamento do Congresso Nacional, cassação de centenas de mandatos parlamentares, aumento da censura, forte repressão ao direito de manifestação e a montagem de uma intensa máquina de punição e tortura, especialmente nos porões do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) das Forças Armadas. Foi dentro desse contexto que, decepcionado com a “via pacífica”, Marighella decidiu entrar na luta armada.
O filme mostra um “Marighella” apresentado por inteiro, sem estereótipos. Ele é narrado como alguém capaz de ser frio na hora de realizar ações revolucionárias e de se emocionar como nos momentos de convívio com o filho amado. Resgata também sua negritude, como na cena em que revela sua passagem num terreiro de Candomblé. Ele era filho de Oxóssi.
Baseada na obra de Mário Magalhães, “Marighella – o guerrilheiro que incendiou o mundo”, a produção garante a milhões de pessoas que irão assisti-lo, o acesso à uma outra versão sobre a história de alguém que foi pintado pela máquina de propaganda do regime de exceção, sem direito de defesa, como o “inimigo número um do Brasil”.
Nestes tempos em que um simulacro de regime militar apresenta-se como comédia, embora faça milhões viverem uma tragédia, resgatar a memória do Carlos Marighella real e as razões de sua luta é uma contribuição fundamental para a democracia brasileira. Ele era um democrata, nacionalista, que amava o seu país e que sentiu-se empurrado para a luta armada, simplesmente porque lhe tiraram a possibilidade de atuar por outros caminhos.
Trata-se de um filme que merece ser visto e debatido, resgatando a melhor tradição do cinema nacional. Salve Carlos Marighella! Viva o cinema brasileiro!
*Historiador e Professor do Departamento de Psicopedagogia da UFPB.

