Crítica: Em O Diabo Veste Prada 2, Miranda Priestly ainda impera sob a cafonice disruptiva das cifras sem rosto

Talvez a insatisfação de quem esperava algo superior ou no mesmo nível do primeiro explique seu principal acerto: pela mensagem e pela concepção, ele é um sinal dos nossos tempos

Imagem: Divulgação

Difícil manter boa vontade com a tsunami de sequências que inundou Hollywood desde que a Covid-19 entrou no retrovisor. Não há otimismo tão bem trabalhado que tenha passado incólume pelos lançamentos pós-pandemia ancorados no saudosismo do que não volta – nunca.

 

Mas as colheres de chá são dadas por serem assim, sutis, despretensiosas e negando-se a sucumbir à negatividade. E para manter aquecido o coração de cada espectador, O Diabo Veste Prada 2 abraça o original e caminha sem olhar pra trás.

 

Talvez seja justamente esse seu pecado e sua glória: não emular o passado. O ambiente que permitiu o enredo do filme de 2006 seria inconcebível de se transpor a 2026. Mesmo considerando os ciclos de renovação e retomada do universo da moda, não se veste, não se lê, não se informa e não se cria como no início do século. 

 

A Runway que ditava cultura ali, hoje sequer dita o roteiro de suas próprias reuniões internas. A perda de controle sobre o mercado de jornalismo e a tentativa autoenganosa de se manter viável pela credibilidade adquirida, acinzentam os corredores da revista que nem mais sabe como se definir.

 

Linha do tempo

 

Nessa fissura, Andy Sachs (Anne Hathaway) retorna à revista como editora de especiais para estancar a crise do negócio e gerenciar uma controvérsia reputacional. À revelia da todo-poderosa Miranda Priestly (Meryl Streep) e abençoada pelo CEO da editora, Andy precisa-se vender novamente como pupilo outrora desacreditada mas agora com a bagagem de quem optou pelo “jornalismo sério” para estancar a sangria da marca.

 

Com a missão debaixo do braço, o reencontro do quarteto Andy, Miranda, Nigel (Stanley Tucci) e Emily (Emily Blunt) garante ao público um pouco mais de alívio pela manutenção dos arcos individuais evoluídos. Mas aqui há um choque, a Miranda ferina e cortante do primeiro, condescende com facilidade assombrosa nesses nossos tempos.

 

Com a promessa da promoção dentro da editora, ela precisa fazer tudo continuar funcionando, mesmo que o negócio esteja em queda livre e a crise de identidade atinja pessoas físicas e jurídicas no prédio. 

 

Não se mexe em time que está ganhando

 

Outro ponto pacífico entre qualquer curioso pela obra, a manutenção de David Frankel na direção e Alina McKenna no roteiro cumpriram com elegância o desafio de equilibrar atualização e preservação.

 

A Miranda acuada mesmo sob perspectiva de ascensão individual assemelha-se à personagem encarnada por Margot Robbie em Cruella (2021), a quem a memória guardava como alguém nutrida pela vilania, mas que assume às vezes de anti-heroína quando observada sob lupa e close. 

 

Enquanto a vibração de Andy anteriormente acontecia quase que à revelia dos movimentos da chefe, agora o filme caminha ombro a ombro a sucessão da rotina a que a nova editora está novamente submetida. As urgências seguem urgentes, mas para um mundo que não mais colhe seus resultados pelos seus esforços.

 

O dilema central é transposto numa sequência de acontecimentos frenéticos onde somente resoluções igualmente frenéticas conseguirão responder a altura do que pede o universo do filme e o próprio. 

 

Onde paira dúvida

 

Demover Miranda de sua frieza foi um exercício de contestação ao padrão de resiliência da personagem frente à tudo que lhe acontece e se aproxima de acontecer. Como numa prateleira de supermercado reorganizada, todas as personagens são enfileiradas na mesma linha de visão. E aqui reside uma complexidade: somos tão iguais assim?

 

A resposta que o filme dá é muito mais próxima da aceitação de nossa condição existencialmente falha e menos reforçadora de singularidades. Na sequência, Miranda é mais Meryl. 

 

Onde a satisfação chega

 

Talvez seja melhor julgar a obra pelo concreto, e não pela areia movediça. Andy age por princípio. Miranda age por controle. Nigel age pelo encanto. Emily age pela possibilidade. Nesse mosaico, todos agem por si e pelo ser.

 

O enquadramento da derrocada do mercado editorial enquanto tentam-se salvar as pontas e as carreiras, entrega ao espectador uma história nova em reverência à fórmula de consagração do blockbuster. Por “reduzir os custos” dos embates, não diverte menos pela contenção. 

 

Talvez a insatisfação de quem esperava algo superior ou no mesmo nível do primeiro explique seu principal acerto: pela mensagem e pela concepção, ele é um sinal dos nossos tempos.

 

Manter-se no presente equivale aos custos da lida com o passado. Receitas de bolo ainda resultam em… bolo.

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