Vitimização calculada: uma arma política

O Brasil viverá, neste ano, mais um ciclo em que a vitimização será usada como estratégia política deliberada. A manipulação de narrativas e o uso de bullying emocional e verbal já se intensificam neste período de pré-campanha. O que se desenha, de forma cada vez mais evidente, é a transformação da política em espetáculo, e, pior, em encenação calculada.

A vitimização não é um fenômeno novo. Sempre esteve presente na história humana. O que muda agora é a sua sofisticação e o seu uso sistemático como ferramenta de poder. Na prática, ser percebido como vítima tornou-se um ativo político valioso, capaz de gerar visibilidade, engajamento e, sobretudo, votos.

A retórica do “nós contra eles” não apenas mobiliza, mas aprisiona. Ela cria uma base fiel que passa a enxergar o líder como um “mártir” a ser defendido a qualquer custo. Nesse jogo, a fragilidade é cuidadosamente encenada para desviar responsabilidades, gerar empatia e confundir o eleitorado. Ao mesmo tempo, adversários são rotulados como perseguidores, invertendo-se os papéis de forma conveniente.

Não se trata de ingenuidade, trata-se de método. Uma lógica calculada de desestabilização que atua influenciando parcelas da sociedade e enfraquecendo a capacidade crítica dos cidadãos. Quando isso ocorre, perde-se algo essencial: a autonomia de pensamento.

Os que dominam essa estratégia revelam grande competência em transformar derrotas jurídicas em capital político. Com o apoio crescente da inteligência artificial, esse processo ganha escala e velocidade, convertendo desgaste em comoção e solidariedade. Alternam, com precisão, entre a suposta fragilidade emocional e a agressividade aberta, estimulando a radicalização de seus apoiadores.

O vitimismo, nesse contexto, deixa de ser reação e passa a ser performance. Uma cortina de fumaça eficaz, que desvia o foco dos temas que realmente importam à sociedade. Enquanto isso, avança o discurso antissistema, que corrói a confiança nas instituições e alimenta uma polarização cada vez mais tóxica.

É preciso dizer com clareza: quando a vitimização é usada como instrumento de manipulação, ela deixa de ser legítima e passa a ser um risco para a própria democracia. Não se combate esse fenômeno com complacência ou silêncio.

Fortalecer as instituições, exigir responsabilidade política e valorizar o debate baseado em fatos não são opções, são urgências. Se não houver reação, corremos o risco de ver as próprias ferramentas democráticas sendo usadas para enfraquecer a democracia por dentro.

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