Elizabeth II e o tempo, por Maria do Desterro Leiros da Costa

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Muito do que as futuras gerações saberão sobre a 2ª. era elisabetana nós, seus contemporâneos, somos testemunhas oculares. Hoje tenho a sensação de estar imersa num tempo da História sobre o qual as Artes e as Ciências se debruçarão demoradamente nas eras futuras. Sua biografia será tema de estudos pelos séculos vindouros, os quais dissecarão aspectos sobejamente conhecidos por nós e trarão à luz outros ainda a serem revelados. Análises não faltarão sobre o significado da sua longa trajetória como líder de uma monarquia que, assim como ela, desafiou a modernidade.

Desde muito jovem não acomodou-se às mordomias e privilégios disponíveis para uma princesa, não cedeu à tentação de levar uma vida em berço esplêndido e disse ao mundo inteiro o valor da mulher quando assumiu os papéis de liderança política e social de uma grande potência mundial. Tudo isso num tempo em que a maioria das mulheres do planeta viviam, e ainda vivem, em regime de exclusão, violência, discriminação e privação de direitos.

Maria do Desterro Leiros da Costa

Acho que a palavra “tempo” poderia unir-se às muitas que tentam defini-la. Sempre gostei de apreciar sua postura distinta, sua elegância sóbria e a naturalidade com que assumia os sinais da idade estampados no seu corpo – todos serenamente expostos, como se fossem distintivos de resiliência. Sua relação com o tempo foi admirável; entre os dois havia ares de cumplicidade. Não vi indícios de intervenções cirúrgicas estéticas, ou outras estratégias para ocultar os seus sinais. Ambos pareciam viver em serena harmonia; ela não disfarçava as suas marcas, nem queixava-se, ao menos publicamente, dos limites que ele lhe impunha. Ele, por sua vez, foi para ela generoso, mas implacável – lentamente foi mostrando-lhe o seu poder e não adiou o seu último suspiro.

Muitos erros por ações e omissões da sua era serão discutidos, erros que o tempo não apagará. No entanto quero destacar o papel de Elisabeth II como representante feminina nas altas cúpulas do poder, onde se fez respeitar como símbolo de compromisso, lealdade, bravura e resistência.

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