Quando Gleisi fala do mercado, sei mais sobre Gleisi do que sobre o mercado, por Sérgio Aires Filho

O mercado financeiro não é uma pessoa, um partido político e muito menos um regime de governo.

Foto: Reprodução

Diz um conhecido ditado popular que, quando Pedro fala de João, sabemos mais sobre Pedro do que sobre João. A frase me veio à cabeça ao ler uma declaração da deputada federal Gleisi Hoffmann (PT), segundo a qual o mercado financeiro teria o “DNA do autoritarismo”. É impressionante a capacidade que alguns políticos têm de dizer absurdos com tamanha convicção.

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Afinal, o que caracteriza o autoritarismo? A concentração de poder, a perseguição a adversários, a restrição das liberdades individuais e a tentativa de controlar a sociedade. O que isso tem a ver, necessariamente, com o mercado financeiro? O mercado financeiro não é uma pessoa, um partido político e muito menos um regime de governo. É um sistema no qual pessoas, empresas e governos captam recursos, investem e negociam ativos. Aliás, o próprio governo brasileiro depende desse mercado para financiar parte de suas despesas, por meio da emissão de títulos públicos.

Uma contradição curiosa para quem pretende atribuir ao sistema financeiro uma natureza essencialmente autoritária. E há outra inconsistência: se o mercado financeiro tivesse o DNA do autoritarismo, como explicar sua existência em democracias consolidadas? E como explicar que regimes autoritários também possuam mercados financeiros?

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Evidentemente, o mercado financeiro não está acima de críticas. Existem abusos, conflitos de interesses e concentração de poder econômico que precisam ser enfrentados. Mas reconhecer essas distorções é muito diferente de atribuir a todo um sistema econômico uma suposta vocação autoritária.

O que realmente preocupa na declaração de Gleisi Hoffmann é a tentativa de transformar um conjunto de agentes econômicos em inimigo político. Trata-se de uma retórica que simplifica problemas complexos, alimenta antagonismos e desqualifica interlocutores em vez de enfrentar seus argumentos. Discordar da política econômica de um governo não é autoritarismo. Questionar gastos públicos, juros, inflação ou responsabilidade fiscal também não. São manifestações legítimas de uma sociedade democrática. O autoritarismo começa justamente quando quem está no poder passa a tratar a discordância como ameaça, a crítica como sabotagem e o contraditório como inimigo a ser combatido.

Por isso, volto ao ditado inicial: quando Pedro fala de João, podemos descobrir muito mais sobre Pedro. Ao acusar o mercado financeiro de autoritarismo, Gleisi Hoffmann revelou menos sobre o funcionamento do mercado e muito mais sobre sua própria maneira de enxergar aqueles que discordam dela. Afinal, a democracia não se mede pela tolerância aos que concordam conosco, mas pelo respeito à liberdade daqueles que pensam diferente.

* Sérgio Aires Filho é formado em Comunicação Social (Publicidade) no IESP em 2008 e em música (flauta transversal) na UFPB em 2017. Possui mestrado e doutorado em Educação Musical (UFPB, 2020), pós-graduação em Musicoterapia (CENSUPEG, 2021) e, há 20 anos, trabalha em agências de publicidade e, também, com musicoterapia para pessoas com autismo.

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