O voto espontâneo e a escolha dos brasileiros

Eleição suplementar em Cabedelo
Foto: Divulgação/TRE-PB

Quando li o resultado da pesquisa Datafolha divulgada na noite de ontem, experimentei uma sensação de alívio. Não porque a eleição esteja decidida, longe disso, mas porque alguns números mostram que ainda existe uma parcela expressiva do eleitorado ainda não têm uma escolha consolidada e que poderá fazer a diferença na definição dos rumos do Brasil.

Sempre que é divulgada uma pesquisa eleitoral, dou especial importância ao resultado da consulta espontânea, aquela em que o entrevistado declara seu voto sem receber uma lista de candidatos. Na pesquisa divulgada ontem, Lula aparece com 35% e Flávio Bolsonaro com 26%: uma diferença de nove pontos percentuais. Ao mesmo tempo, 21% ainda não sabem em quem votar.

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É um dado que merece reflexão. Faltando pouco mais de duas semanas para o primeiro turno, mais de um terço dos eleitores já menciona espontaneamente o nome do atual presidente. Isso revela um grau significativo de cristalização da preferência eleitoral.

Mas o segundo número que me chama a atenção é justamente o dos indecisos. Quem ainda não definiu seu voto a pouco mais de duas semanas da eleição pode estar observando o processo com maior cautela antes de tomar sua decisão. É possível que uma parcela desses eleitores não esteja rigidamente vinculada às bolhas ideológicas que dominam o debate político e, por isso, tenha maior liberdade para comparar propostas, trajetórias e compromissos apresentados pelos candidatos.

Não significa que todos os indecisos votarão de maneira racional ou que necessariamente abandonarão suas convicções anteriores. Mas significa que existe ainda um contingente importante de brasileiros que poderá avaliar os caminhos colocados diante do país antes de chegar às urnas. E é justamente aí que está, a meu ver, uma das questões centrais desta eleição.

O eleitor terá de comparar projetos, biografias e concepções diferentes sobre o Brasil. De um lado, está um candidato com uma longa trajetória política e experiência comprovada no exercício da Presidência da República. Do outro, um candidato cuja principal força eleitoral está associada ao sobrenome de sua família e à continuidade de um projeto político identificado com o bolsonarismo.

Terá de decidir, igualmente, entre diferentes concepções de soberania nacional. Entre um discurso que reivindica maior autonomia do Brasil nas relações internacionais e outro que, segundo declarações públicas atribuídas ao candidato, admite uma aproximação particularmente estreita com o governo Donald Trump, inclusive com a participação de integrantes do governo norte-americano em uma eventual equipe de transição. Esse não é um detalhe secundário. É uma questão que diz respeito à soberania nacional e ao lugar que o Brasil pretende ocupar no mundo.

O eleitor também terá de observar como cada candidato se posiciona diante da ciência, da educação, da cultura, das instituições democráticas e da própria história brasileira. São escolhas que vão muito além de uma disputa entre pessoas ou partidos. Dizem respeito ao projeto de país que será colocado em prática a partir de janeiro.

A pesquisa estimulada, é verdade, apresenta um cenário muito mais apertado: Lula aparece com 39% e Flávio Bolsonaro com 36%, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Portanto, não há espaço para comemorar antecipadamente qualquer resultado. A eleição permanece aberta e a campanha seguirá disputada até o dia 4 de outubro.

Mas a pesquisa espontânea oferece, pelo menos, um elemento para reflexão: quando não são apresentados os nomes dos candidatos, Lula é lembrado espontaneamente por 35% dos eleitores, contra 26% de Flávio Bolsonaro. E 21% ainda não fizeram sua escolha.

É nesse eleitor que concentro minha esperança. Não espero que ele vote necessariamente como eu. Espero apenas que vote com liberdade, consciência e responsabilidade. Que examine as propostas, conheça as trajetórias, compare os compromissos e pense no Brasil que deseja entregar às próximas gerações.

Sei que, diante da radicalização política que tomou conta do país, estas avaliações poderão provocar xingamentos e ofensas pessoais daqueles que discordam de mim. Não me incomodo com isso.

Tenho o direito de expressar aquilo em que acredito, assim como qualquer cidadão brasileiro tem o direito de pensar diferente. O que não podemos perder é justamente aquilo que está em disputa: a capacidade de conviver democraticamente com a divergência.

Não fujo do debate. Ao contrário. Estou disposto a participar dele sempre que acontecer com argumentos, respeito e civilidade.

Porque democracia não é apenas o direito de escolher. É também o direito de pensar diferente, de falar livremente e de respeitar a escolha do outro.

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