Brecht, Nietzsche e a sociedade que procura heróis, por Paulo Amilton

Moraes mantém suspensão de visitas e nega pedido de Bolsonaro para encontrar os filhos no Dia dos Pais.

O recente embate no Supremo Tribunal Federal (STF) ressuscitou um vicio incurável da sociedade brasileira que é a necessidade de se ter um Salvador da Pátria. O atual é o ministro André Mendonca, o terrivelmente evangélico. Este está neste momento digladiando contra  o Dragão da Maldade Alexandre Moraes, aquele que colocou o último Salvador da Pátria tupiniquim, o Mito, Jair “O Messias” Bolsonaro. Isto me fez lembrar de alguns filósofos que escreveram sobre heróis de pés de barro.

A conhecida formulação de Brecht — “Infeliz a terra que precisa de heróis” — pode servir como ponto de partida para pensar um problema recorrente das democracias, qual seja, quando as instituições perdem credibilidade, cresce a procura por indivíduos apresentados como capazes de resolver, por força pessoal, problemas que deveriam ser solucionados institucionalmente.

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Nietzsche chega a essa discussão por outro caminho. Sua filosofia contém uma crítica profunda ao comportamento de rebanho, à submissão intelectual e à aceitação de valores simplesmente porque são compartilhados pela maioria. O indivíduo intelectualmente autônomo deveria ser capaz de questionar valores estabelecidos, em vez de procurar segurança na adesão coletiva.

Isso produz um aparente paradoxo. Nietzsche valorizava indivíduos extraordinários e desconfiava profundamente do igualitarismo moderno; portanto, seria incorreto transformá-lo simplesmente em um defensor da democracia liberal. Entretanto, sua crítica à submissão permite formular uma pergunta extremamente atual: quando uma sociedade deposita suas esperanças políticas em uma personalidade, seus cidadãos estão exercendo autonomia ou apenas substituindo instituições por obediência a um líder?

A história política brasileira oferece vários momentos em que candidatos foram apresentados como indivíduos capazes de superar o funcionamento ordinário das instituições. Getúlio Vargas construiu a imagem do líder diretamente conectado às massas; Jânio Quadros utilizou a vassoura como símbolo da limpeza da política; Fernando Collor apresentou-se como “caçador de marajás”. Mais recentemente, tanto o lulismo quanto o bolsonarismo desenvolveram, embora de maneiras bastante diferentes, forte identificação entre parcelas do eleitorado e a figura pessoal de seus principais líderes.

O problema começa quando a pergunta “quais instituições e políticas públicas podem resolver esse problema?” é substituída por “qual líder pode nos salvar?”

É nesse ponto que Brecht se torna particularmente relevante. Uma democracia institucionalmente madura não deveria depender da virtude extraordinária de um presidente. Deveria possuir Congresso, Judiciário, imprensa, universidades, órgãos de controle, burocracia profissional e sociedade civil suficientemente fortes para funcionar inclusive quando o governante é medíocre.

Podemos representar isso de maneira simples: instituições fracas → desconfiança → procura por um líder forte → personalização da política → enfraquecimento adicional das instituições. Surge, assim, um círculo potencialmente vicioso.

A contribuição nietzschiana permite olhar para o eleitor, e não apenas para o político. A política de massas pode criar identidades coletivas nas quais defender o líder passa a fazer parte da identidade pessoal do indivíduo. Uma informação contrária ao político preferido deixa então de ser examinada simplesmente como informação e passa a ser percebida como ataque ao próprio grupo. Nesse ambiente, argumentos importam menos que pertencimento.

Isso não significa que todo apoio intenso a um político seja irracional. Uma pessoa pode apoiar Lula, Bolsonaro ou qualquer outro candidato por razões econômicas, ideológicas ou programáticas perfeitamente articuladas. O problema democrático aparece quando a fidelidade à pessoa se torna superior à fidelidade às regras.

A pergunta decisiva deixa de ser “meu candidato ganhou?” e passa a ser: “Eu aceitaria esta mesma regra institucional se ela beneficiasse meu adversário?” Essa é uma espécie de teste prático da impessoalidade democrática.

Nas eleições de 2026, essa reflexão é especialmente útil. Em uma democracia saudável, o eleitor deveria comparar propostas sobre crescimento econômico, desigualdade, segurança, educação, saúde, equilíbrio fiscal e funcionamento das instituições. A eleição deveria ser uma competição entre projetos de governo, e não uma disputa entre figuras consideradas redentoras.

Brecht fornece então uma advertência institucional: uma sociedade não deveria precisar de um herói para funcionar. Nietzsche acrescentaria uma provocação intelectual: o indivíduo precisa pensar por si próprio, inclusive contra seu próprio grupo.

Reunindo os dois, sem confundir suas filosofias, chegamos a uma tese poderosa para analisar a política brasileira: Quanto mais uma sociedade necessita de salvadores, maior pode ser a evidência de que suas instituições não estão cumprindo adequadamente seu papel; e quanto mais os cidadãos transformam políticos em objetos de fidelidade pessoal, menor tende a ser o espaço para o julgamento crítico.

Por isso, talvez o verdadeiro sinal de amadurecimento democrático não seja encontrar o “herói certo”, mas construir instituições tão sólidas que nenhum herói seja necessário.

 

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