Confesso que nunca conheci uma pessoa assim.
Aliás, nem sei se ela existe.
Talvez seja apenas uma lenda moderna, dessas que circulam pelas rodas de conversa, pelas redes sociais e pelos grupos de mensagens.
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Dizem, porém, que existe por aí uma figura curiosa: o Especialista em Conhecimentos Mínimos e Opiniões Máximas.
É um personagem extraordinário.
Sabe um pouco de tudo e muito de nada.
Ou, para ser mais preciso, sabe quase nada sobre quase tudo, mas fala como se tivesse inventado o assunto.
Fala de medicina para médicos, de economia para economistas, de engenharia para engenheiros e, se surgir a oportunidade, explica aos astrônomos como o universo deveria funcionar.
Enquanto especialistas dedicam anos a uma única área, ele domina todas simultaneamente. Uma admirável economia de tempo e estudo.
Seu currículo é respeitável.
Formou-se na Universidade do Eu Acho.
Fez especialização na Faculdade Tenho Uma Opinião.
E concluiu doutorado em Convicções Instantâneas.
Seu método de pesquisa dispensa livros, dados, pesquisas e estatísticas.
Uma manchete lida pela metade, um vídeo de poucos segundos ou uma conversa ouvida por acaso bastam para transformá-lo em autoridade.
Para ele, ouvir falar é praticamente o mesmo que conhecer.
O mais impressionante é sua autoconfiança.
Enquanto estudiosos costumam reconhecer dúvidas e complexidades, o Especialista em Conhecimentos Mínimos possui respostas para tudo.
Não trabalha com hipóteses.
Não convive com nuances.
Sua matéria-prima é a certeza absoluta.
Ele não coleciona conhecimentos.
Coleciona certezas.
A conversa pode começar sobre chuva.
Poucos minutos depois, ele já estará explicando inteligência artificial, conflitos internacionais, mudanças climáticas e a reprodução das tartarugas marinhas.
Tudo com a mesma desenvoltura.
Tudo com a mesma convicção.
Tudo com a mesma superficialidade.
Existe até uma curiosa lei da natureza que parece acompanhá-lo:
Quanto menor o conhecimento, maior a convicção.
Fenômeno ainda pouco estudado.
Provavelmente porque os cientistas estejam ocupados pesquisando, enquanto ele já terminou de opinar.
Mas não sejamos injustos.
Talvez esse personagem não exista.
Talvez seja apenas fruto da imaginação popular.
Afinal, quem já conheceu alguém capaz de falar sobre todos os assuntos, corrigir especialistas, oferecer soluções para qualquer problema e jamais admitir que não sabe alguma coisa?
Eu, sinceramente, nunca encontrei ninguém assim.
Nem você.
Ou encontrou?
Porque, se encontrou, não estou lhe contando nenhuma novidade.
Muito provavelmente ele já tem uma opinião formada sobre este artigo, sobre o autor e sobre o que deveria ter sido escrito no lugar dele.
Mas, sinceramente, acho que ele nem existe.
Embora, se existisse, certamente discordaria deste artigo.
E da discordância nasceria outra opinião.
E da opinião, mais uma explicação.
E da explicação, mais uma certeza.
De modo que essa conversa provavelmente nunca teria um ponto final. Ou seria um ponto e virgula! Chamar o especialista .
