O centro histórico não pode se transformar em um cemitério urbano!

Foto: Lara Ribeiro/ Portal WSCOM

Há mais de 45 anos convivendo diariamente com o mercado imobiliário de João Pessoa, aprendi a enxergar a cidade não apenas como um conjunto de ruas, imóveis e empreendimentos, mas como um organismo vivo, pulsante, que precisa respirar economicamente para sobreviver.

E poucas regiões me despertam tanta atenção quanto o Varadouro e o Centro Histórico de João Pessoa.

Confesso que muitas vezes, principalmente aos domingos, caminho pelo Centro Histórico quase como um exercício de observação urbana. Analiso possibilidades, imagino cenários futuros, observo o comportamento da cidade e tento entender por que uma região tão rica em história, arquitetura e identidade ainda enfrenta tantas dificuldades para renascer plenamente.

E a conclusão a que chego há muitos anos é simples:

Nenhum centro urbano sobrevive sem funcionalidade econômica.

E um dos maiores problemas do Centro Histórico de João Pessoa chama-se estacionamento.

Sem estacionamento, não existe fluxo.
Sem fluxo, não existe comércio.
Sem comércio, não existe revitalização.

Mas existe outro problema ainda mais grave: a forma rígida, muitas vezes inflexível, como determinadas questões ligadas ao patrimônio histórico são tratadas.

É preciso dizer algo que muitos pensam, mas poucos têm coragem de afirmar:

Nem todo imóvel antigo possui condições reais de recuperação.

Existem imóveis no Centro Histórico completamente destruídos, em estado de ruína absoluta, sem viabilidade econômica, técnica ou estrutural para restauração. Em muitos casos, perdeu-se praticamente tudo.

Enquanto isso, outros imóveis verdadeiramente importantes, com relevância arquitetônica, cultural e histórica, possuem total condição de recuperação e merecem ser preservados integralmente.

O grande erro está em tratar situações completamente diferentes como se fossem iguais.

Há cerca de dez anos, vivi pessoalmente uma experiência que me marcou profundamente.

Participei da tentativa de implantação de um grande empreendimento empresarial em uma residência localizada na Avenida Epitácio Pessoa, de arquitetura assinada por Acácio Gil Borsoi e paisagismo de Burle Marx. Durante as negociações, o imóvel foi tombado pelo patrimônio histórico.

Na época, chegou-se a cogitar questionamentos judiciais, mas o proprietário amava a residência e preferiu buscar um caminho de entendimento e preservação.

E foi exatamente isso que tentamos fazer.

Convenci os empresários envolvidos a contratarem o próprio Acácio Gil Borsoi, ainda vivo naquele período, para desenvolver pessoalmente a adaptação do projeto à nova realidade do imóvel tombado.

O resultado foi extraordinário.

Criou-se um projeto moderno, inteligente, sofisticado e totalmente comprometido com a preservação da residência. Até pedras existentes no terreno, que sequer estavam protegidas oficialmente, foram preservadas por exigência nossa e integradas ao projeto arquitetônico.

Durante mais de seis anos participei de reuniões semanais tentando viabilizar aquela aprovação junto aos órgãos competentes.

E mesmo com toda a boa vontade, competência técnica e respeito absoluto ao patrimônio histórico, o projeto jamais foi aprovado.

A pergunta que fica é inevitável:

Até que ponto preservar significa impedir a cidade de evoluir?

Porque existe algo que precisa ser compreendido com urgência:

Um imóvel abandonado também representa destruição do patrimônio histórico.

Uma área degradada, sem uso, sem circulação humana e sem atividade econômica, termina se transformando em um verdadeiro cemitério urbano.

O que João Pessoa precisa talvez seja de coragem para discutir um novo modelo de revitalização urbana inteligente.

Por que não realizar um grande levantamento técnico no Centro Histórico para identificar:

* quais imóveis possuem efetivo valor histórico recuperável;
* quais possuem viabilidade econômica de restauração;
* e quais já se encontram sem possibilidade prática de recuperação?

Os imóveis inviáveis poderiam dar lugar a estacionamentos estruturados, edifícios-garagem e empreendimentos compatíveis com a região, criando fluxo econômico e sustentação financeira para a própria revitalização do Centro Histórico.

E mais:

Parte desses recursos poderia alimentar um fundo permanente destinado exclusivamente à restauração do patrimônio histórico realmente relevante.

Isso não seria destruição da memória.
Seria salvar o que ainda pode ser salvo.

Outra solução extremamente inteligente seria ampliar a transferência do potencial construtivo dessas áreas para outras regiões da cidade, criando mecanismos modernos de compensação urbana.

O que não pode continuar acontecendo é o engessamento absoluto de uma região inteira enquanto o tempo destrói lentamente aquilo que se pretendia preservar.

Felizmente, iniciativas importantes começam a surgir.

O Governo do Estado, através do governador João Azevêdo, a Prefeitura de João Pessoa, sob a gestão do prefeito Cícero Lucena, além da importante articulação e contribuição do jornalista Walter Santos, vêm ajudando a estimular novos investimentos na região central da cidade.

O projeto ligado ao antigo Colégio Pio XII representa um sinal importante de que ainda existe esperança para o Centro Histórico.

Mas é preciso ir além.

Muito além.

O Centro Histórico de João Pessoa não pode sobreviver apenas como cenário turístico ou peça de contemplação estética.

Ele precisa voltar a ter vida.
Precisa voltar a gerar negócios.
Precisa voltar a atrair pessoas.
Precisa voltar a respirar economicamente.

Preservar não pode significar condenar uma cidade à paralisia.

A verdadeira preservação é aquela que mantém viva a alma urbana de um povo!

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