PORQUE A CULTURA?

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            Estivemos revendo alguns quadros da nossa carreira profissional, logicamente sem distanciar dos pilares base até aqui. Na memória da infância modesta no centro da cidade de João Pessoa (onde diariamente escutava o radio ABC tocando os violeiros repentistas no final de tarde), a adolescência nos bairros do Tambiá e Róger (onde assistíamos os bailes da Jovem Guarda, vimos construir o ginásio do Clube Astréa e a TV Cabo Branco), depois Tambaú (discoteca Papillon, Jangada Clube, Elite), a ida necessária para Recife representando a EMI Odeon/BMG Ariola/Sony Music, as idas e vindas ao Rio, São Paulo, Amazonas, Fortaleza, Natal, Maceió, Salvador, interiores da Paraíba e Pernambuco, que passamos a conhecer com o auxílio luxuoso e honroso de Luiz Gonzaga, Sivuca, Gonzaguinha, Dominguinhos, e muito outros companheiros de jornada.


A cada viagem voltava sempre enriquecido das imagens da natureza, da cultura dos lugares, das vozes, da música, da poesia, com uma lista cada vez maior de amigos dos lugares por onde passei… “Minha vida é andar por esse país…”


No início tive pequeno estágio pelo esporte (com o técnico Totonho (in memorian), de basquete), logo conhecendo através de Beneval (Bené) Andrade, Roberto Carlos de Oliveira e Marcos Discotheque, o gosto pela música. Foi Abelardo Jurema Filho quem me deu a primeira chance de produzir um programa de rádio, o Status Social, na antiga Tabajara; depois Jadir Camargo na Arapuan. Alberto Arcela com uma coragem louca abriu as páginas do Correio para colaboração com pequenas crônicas sobre comportamento e música, Carlos Aranha, Silvio Osias, Carmélio Reinaldo, Jomard Muniz, época que conhecemos Chico César, Walter Santos, Pedro Osmar, Fuba, e outros com quem aprendi e aprendo ainda muito, e tivemos coluna sobre música também no Jornal O Momento.


Até que um dia o finado radialista Ivan de Oliveira me desafia a fazer uma entrevista com uma artista nacional que estava hospedada no antigo hotel Tropicana. Era nada mais, nada menos que Elis Regina. E Zezé Limeira, então editora, me deu página inteira para publica-la. Entre uma e outra relíquia, recebo uma carta de Gonzaguinha, que ainda guardo e viria depois em versão de música: “Gerreiro Menino (Um homem também chora)”.


Retornei á terra natal e fui junto com Lena Guimarães, Waldemar Paulo (in memorian), e Petrônio Souto, dar novo fôlego à programação da rádio Arapuan. Foi uma época que sugerimos abrir espaço para nossos valores e passar a tocar artistas paraibanos como Chico César, Dida Fialho, Cida Lobo, Limousine 58, Bráulio Tavares, Tadeu Mathias e outros, e ao mesmo tempo, produzindo alguns pocket shows de Chico, Dida, e até uma coletiva em parceria com Fernando Teixeira, a Sexta Feira 13, no teatro Santa Roza…


Uma tarde, em São Paulo, recebo um telefonema de Walter Santos, indignado com uma senhora da Academia de Letras, que havia publicamente perguntado quem eram um tal de Buda Lira e Gil Sabino, e o que significavam para a cultura da Paraíba… Mesmo sem querer zuada, o amigo saiu em nossa defesa, com artigo no portal WSCOM, e sugerimos que a tal senhora buscasse informação no Google.


A serpente do tempo como as curvas de um rio (ouvi ainda pouco essa frase no texto da novela Velho Chico), é coisa com que só o destino pode fazer das nossas vidas. Sempre que pude, retornei à João Pessoa, atualizando, discutindo em torno da arte e da cultura e bebendo da fonte. Jamais imaginei que voltaria pra ficar. Voltei. E agora tenho a certeza de que tudo aprendido, tudo plantado, está em tempo de colheita. Os amigos que me abraçam, e as novas gerações me dão a alegria necessária para cada vez mais trabalhar, no sentido de abrir portas, de incentivar, no sentido daquilo que mais gosto de trabalhar e esteve, está o tempo todo traçado no destino da minha vida, que é a comunicação, a arte e a cultura. Nossas mãos, nossas ideias, debates, curiosidades, nossas trocas, nossas moedas de valor estão todas aí, funcionando juntas numa economia de vida à serviço de cultivar a arte como agenda viva.


Gil Sabino é jornalista e gestor de marketing. g.sabino@uol.com.br
 

Escrito por: Gil Sabino

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