A crítica petista ao ajuste fiscal

O ministro da Fazenda Joaquim Levy não é santo nem demônio, muito menos salvador da Pátria. É apenas o responsável por mais um ajustamento ortodoxo da nossa economia. O que não é uma tarefa do outro mundo, até porque essa é a linha política defendida pela oposição do atual governo.

No Partido dos Trabalhadores (PT) há muitos descontentes com a guinada à direita da presidente Dilma. Os ajustes fiscais oneram muito os trabalhadores e comprimem os   serviços e investimentos públicos. Em coerência com o ideário social progressista do partido, os mais atingidos por esses custos seriam as pessoas mais ricas.

Não há proposta do PT alternativa à do senhor Levy. Há sugestões de tributação às grandes fortunas e mais impostos sobre as altas rendas, para fins redistributivos e cobrir o déficit orçamentário. Essa é uma visão ingênua do nosso capitalismo. O discutível acatamento dessa ação levaria anos; os ajustamentos não podem esperar.

Os atuais problemas brasileiros são sérios e complexos. É preciso ir além da crítica genérica da solução em andamento. Não vale, apenas dizer que é sempre um equívoco da ortodoxia combater crise econômica com ajustamento orçamentário. Afinal, qual a crise que se tem como referência?

Nos Estados Unidos, Japão e países da Europa, a crise vem de 2008 e decorre das contradições típicas do capitalismo avançado. As taxas de juro e inflação chegaram quase a zero sem recuperar os níveis normais dos investimentos e consumo privados. O crescimento do PIB é baixo e o desemprego é alto. Nesse contexto, os ajustes fiscais ortodoxos provocariam recessão, deflação e mais desemprego.

O caso brasileiro é diferente. A crise é fiscal com implicações monetárias. O altíssimo déficit público não pode ser financiado pela dívida pública, que já se encontra além do limite razoável. Financiar esse desequilíbrio com emissão de dinheiro geraria rapidamente uma inflação de dois dígitos.

A desorganização econômica criada em 2014 foi muito grande: o déficit publicou pulou de 3% para 6,7% do PIB, a dívida pública de 56,8% para 64,5% do PIB, a taxa básica de juros de 10% para 11,75% e a inflação de 5,5% para 6,4%. Isso travou os investimentos privados e públicos e os gastos do governo estagnando a economia.

Nessas condições, o Brasil teria, neste ano, investimentos abaixo dos de 2014. O governo nada poderia fazer para promover o crescimento econômico. Os ajustamentos devem criar as condições para a queda dos juros e da inflação. Enfim, o quadro econômico era tão ruim que fez brotar alguma virtude do purgante amargo do Dr. Levy.

O problema é que, até agora, os ajustes fiscais e monetários só fizeram aumentar os juros e a inflação. Urge corrigir os excessos. A taxa de juro Selic deve iniciar uma trajetória descendente para 10% e os investimentos do governo devem ser reativados com vigor. Sem isso, haverá um cheiro de propaganda enganosa no ar.

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