Essa música foi tema de abertura da novela “Sete pecados”, da Tv Globo. Composta em parceria com Paulinho Moska, Zélia Duncan dá um show de interpretação, numa letra que fala das imperfeições humanas e da coragem de aprender com os erros, não se restringindo a fazer apenas aquilo que é permitido pelas regras sociais. A personagem da música se confessa uma transgressora, uma pecadora, mas, acima de tudo, humana.
“Alegria do pecado às vezes toma conta de mim/e é tão bom não ser divina/me cobrir de humanidade me fascina/e me aproxima do céu”. Existem pessoas que têm medo de atender o que anseia a sua condição de ser humano, que pensa, sonha, deseja, sente prazeres, idealiza. Receio de serem censuradas, mal vistas, condenadas por cometerem atos que fogem dos padrões definidos pela sociedade. Querem sempre parecer “santas”, de condutas inatacáveis, embora muitas vezes seja pura hipocrisia. O “eu lírico” opta por ser humana, em toda a força de sua expressão de vida. Isso exerce nela um certo fascínio, um deslumbramento que a faz se sentir mais próxima do céu, mesmo sem ser divina.
“E eu gosto de estar na terra cada vez mais/minha boca se abre e espera/o direito ainda que profano/do mundo ser sempre mais humano”. Ela prefere ser realista, verdadeira, autêntica, na sua forma de viver. Tem a expectativa de usar do direito de ser feliz, ainda que contrariando preceitos religiosos. Quer, antes de tudo, ser humana, com todos os prazeres que a vida lhe oferece, a despeito dos paradigmas e convenções ditadas por doutrinas ou interpretações do que seja moral.
“Perfeição demais me agita os instintos/quem se diz muito perfeito/na certa encontrou um jeito insosso/pra não ser de carne e osso”. Critica aqueles que se apresentam como perfeitos, inteiramente adequados às exigências dos conceitos e normas, imaculados. Essa correção no modo de ser provoca seus instintos e aguça sua curiosidade em fazer exatamente o contrário. Na sua visão, os “perfeitos” não podem ser pessoas felizes, porque não provam o gosto do pecado, dos impulsos normais de quem é constituído de carne e osso.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.