No seu Auto-Retrato Intelectual, Furtado sintetizou as ideias-força da formação do seu espírito e da sua atividade intelectual criadora. Para ele o mundo dos homens sempre estaria muito distante do paraíso. A tendência seria o predomínio da arbitrariedade e da violência.
Essa seria a característica sinistra da humanidade, dos rincões mais atrasados do Nordeste brasileiro às mais sofisticadas civilizações da Europa e dos Estados Unidos. “A luta contra esse estado de coisas exige mais que simples esquemas racionais. Essa luta, tal como um rio que passa, sempre traz águas novas, ninguém a ganha propriamente e nenhuma derrota é definitiva”.
Furtado foi, entretanto, um otimista, em relação ao futuro da sociedade humana. A razão para tanto estava na sua convicção da força criadora do trabalho intelectual baseado no conhecimento científico e filosófico, ligando o homem à história. Daí nasceu e se desenvolveu o seu interesse pelas ciências sociais, como meio de compreensão transformadora do mundo.
Celso Furtado foi um crítico severo do núcleo científico-filosófico do Marxismo. A sua teoria do desenvolvimento capitalista negou dois aspectos essenciais das ideias de Marx: o homem como objeto do saber, com sua existência social passivamente submetida, e a irreversível tendência à crise do processo de acumulação de capital.
Para Furtado, fazendo-se as modificações estruturais adequadas, as correlatas e necessárias transformações do quadro institucional poderiam vir subsequentemente sem a ocorrência de crise. A vida acadêmica de Furtado foi bastante exitosa, na formulação de teorias voltadas ao planejamento e execução dessas modernizações estruturais e superestruturais.
O capitalismo enfrenta grandes problemas historicamente específicos. Há uma evidente carência de um novo saber solucionador. As teorias mais relevantes, nas linhas de Keynes e Marx, não explicam nem resolvem a crise sistêmica global, que se arrasta, sem solução, desde 2008. É imprescidível uma competente autocrítica teórica, filosófica, política e ideológica, com vistas a uma convivência com as contradições atuais desse modo de produção.
As ideias de Celso Furtado trouxeram novas perspectivas ao desenvolvimento capitalista. No seu entendimento, é possível criar condições efetivas para resolver as contradições dialéticas do processo de acumulação produtiva de capital. Desse modo, evitar-se-iam os grandes efeitos contundentes das crises, tais como foram demonstrados por Keynes e Marx, para o capitalismo funcionando em condições laissez-faire.
A dialética do desenvolvimento captada por Furtado é afirmativa da possibilidade do progresso contínuo do capitalismo. O processo de negação, aí imanente, se daria com relação às formas capitalistas inferiores de produção, no sentido da sua reestruturação e adaptação, para conviver com o avanço político-econômico, criando democracias capitalistas cada vez mais aperfeiçoadas.