Agosto/1968: O debate ideológico da invasão de Praga

 

Dentro do quadro de um mundo bipolar, dividido em dois blocos: capitalismo (EUA, Europa Ocidental e Japão) e socialismo (URRS e Europa Oriental), o que se observava, além dos conflitos ideológicos, eram, na verdade, uma disputa por hegemonia de poder.

A invasão da Checoslováquia por tropas militares do Pacto de Varsóvia acendeu esse debate. Entre nós, na Paraíba, as manifestações tiveram também essa linha de observação crítica, principalmente entre intelectuais e estudantes.

O Grupo Dimensão, que tinha em seus quadros nomes destacados da cultura paraibana, fez questão de tornar pública sua posição a respeito, emitindo nota oficial subscrita por Carlos Aranha, Manfredo Caldas, Sávio Rolim e Walter Carvalho.
“O Grupo Dimensão, considerando suas características de trabalho cultural, decide mostrar preocupação pelos fatos políticos, e lançar publicamente uma atitude de reserva diante dos acontecimentos verificados por tropas de alguns exércitos socialistas. Encarando com extrema simpatia o processo de liberalização cultural iniciado por Dubceck, apoiado pelos intelectuais de todas as nações, não podemos deixar de sentir o perigo existente nas investidas da economia capitalista na Checoslováquia, deixando a hipótese de uma regressão nas conquistas sociais daquele país, após a instauração do regime socialista.
Só podemos adotar uma posição de reserva diante de tais acontecimentos, pois não queremos crer integralmente nas notícias veiculadas por agências como a United Press International, que deturpam os fatos procurando criar com isso, um clima geral de antipatia no mundo ocidental, diante de qualquer regime socialista”.

Percebe-se a situação incômoda em que ficaram os esquerdistas, mesmo reconhecendo inconseqüente a ação militar das nações socialistas, procuravam responsabilizar a mídia capitalista, comandada pelos Estados Unidos, pela gravidade oferecida ao acontecimento. Sem ter como justificar o ato, a esquerda brasileira tentava minimizar a agressão sofrida pelo povo checo, buscando convencer a opinião pública de que havia exagero nas notícias veiculadas pela imprensa ocidental.

Os estudantes do Liceu, liderados pelo dirigentes do Grêmio Daura Santiago Rangel, realizaram várias manifestações. Justificando seu procedimento afirmavam: “A Checoslováquia, como país independente tem pleno direito a resolver seus problemas internos, não necessitando da intervenção de outras nações, mesmo que sejam do mundo socialista”. Esclareciam, contudo, que não estavam adotando uma posição contrária ao socialismo, mas “contrária ao imperialismo da União Soviética que invadiu a Checoslováquia, não para defender o regime socialista, mas para garantir o seu poderio econômico”.

Em seus discursos faziam questão de colocar que “não fazemos coro com o governo dos Estados Unidos e outros da América Latina, que por intermédio da imprensa burguesa, estão se aproveitando do fato para armar um grande jogo contra o socialismo. Estamos defendendo o direito de autodeterminação dos povos. Infelizmente estão distorcendo os fatos e a partir de uma condenação à União Soviética, fazem uma condenação a todos os socialistas”.

O que se pode concluir dessas manifestações é que os apoiadores dos regimes socialistas se sentiram atingidos pela grande repercussão do episódio e partiram para o contra ataque, chegando ao ponto de acusar distorção dos fatos e divulgação de notícias com o objetivo de desmoralizar a politica socialista.

Por outro lado o professor Tarcisio Buriti,em palestra proferida no auditório da Faculdade de Direito, com a presença de mais de trezentos universitários, discorrendo sobre Política Internacional, declarou: “Não podia deixar de frisar a antijuridicidade da invasão que se constitui num flagrante atentado ao princípio de soberania dos povos”.

O presidente do Sindicato dos Comerciários de João Pessoa, João Dionísio de Oliveira, fez publicar nota oficial nos seguintes termos:
“Como presidente de um sindicato livre e autêntico, o que me corresponde a uma pequena partícula de um poder soberano, levo ao conhecimento dos meus prezados colegas comerciários, bem como o público, meu protesto e apresento veemente repúdio contra a invasão da Rússia e outros países em território da Checoslováquia, ou de qualquer outra nação, desrespeitando e atentando contra a soberania de povos livres e organizados”.

O ataque russo à cidade de Praga produziu, portanto, uma guerra nos campos ideológicos que dominavam o mundo na época, cada um querendo fazer valer conceitos em defesa de suas posições políticas.

• esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
• comentários e informações adicionais devem ser encaminhados para o email: iurleitao@hotmail.com

 

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