Quando Humberto Lucena me pediu para votar em Maranhão para deputado federal, meus amigos e parentes desgostaram da oferta. Oriundos da UDN de Clovis Bezerra, meus apoiadores olhavam atravessados para um ex-cassado. Comunista se sabia que ele não era. Sua cassação também não se dera por corrupção. Tratava-se de um esquerdista romântico, depois revelado um latifundiário tão versátil que terminou botando Frei Anastácio, líder dos sem terra, a seu serviço. Logo, votar em Maranhão não oferecia perigo aos ex-udenistas e ex-arenistas, agora peemedebistas liderados por Humberto, mas vindo do PP de Antonio Mariz e Tancredo Neves. Firmamos uma parceria em todo o brejo. Enquanto fui do PMDB era Maranhão o meu deputado federal. Só deixei de votar nele quando resolvi votar em mim mesmo.
Eu era diretor do Banco do Nordeste. Em uma viagem para Brasília fui obrigado a trocar de aeronave em Salvador. No mesmo vôo, vindo do Recife, encontrei um Maranhão desencantado com a política e anunciando sua despedida da vida publica. O destino, pelas mãos de Humberto, fez de Maranhão vice-governador de Antonio Mariz. Com a partida de Mariz, ele se torna o primeiro mandatário do Estado. Estadista por acaso, foi reeleito em face da oposição quixotesca de Gilvan Freire. Ganhara novo mandato desde a convenção do partido, quando o famoso confinamento de delegados partidários eliminou seu principal opositor. Disputou em 2006, pela primeira vez, a cadeira de Governador. Perdeu para Cássio Cunha Lima. Agora, tentou renovar nas urnas de 2010 um mandato que conquistara nos tribunais. O povo, mais uma vez, lhe negou o sabor da vitoria.
A derrota de Maranhão foi um acontecimento que muitos já tentaram explicar. Incluída a presença na disputa de um projeto moderno de governo com visão futurista da Paraíba, um outro fator foi decisivo para a vitória da oposição. A minha tese vem da experiência, do dia a dia, da convivência de quarenta anos com o eleitor. Aliás, o saudoso Zé Fernandes costumava dizer que o político, no exercício da vida pública, só consegue se especializar em gente. Daí a minha conclusão: o povo receou perpetuar o poder excessivo que Maranhão construiu em pouco tempo na Paraíba.
Com a conquista do Poder Executivo, Maranhão dominou a imprensa falada, escrita e televisada. Poucas e heróicas páginas da internet ousavam divulgar algo que contrariasse o dono do poder Casado com uma desembargadora/vice-presidente do Tribunal de Justiça alimentou o folclore de que também mandava na Justiça. Fez vista grossa e estimulou a escolha de um dos seus maiores adversários para Conselheiro do Tribunal de Contas, desde que deixasse a presidência da Assembléia. A partir de então, passaria a mandar, também, no Poder Legislativo.
Os partidos foram chamados um a um e muitos, cooptados pelo Governo. Suas lideranças ganhavam cargos e posição anunciados no Diário Oficial. Os prefeitos firmavam convênios e levavam dinheiro para obras, independente do partido a que pertenciam, desde que aderissem ao projeto de reeleição do Governador. A oposição minguava com a transparência que as pesquisas fabricadas cuidavam de sedimentar. Acumulando tantos poderes em suas mãos, Maranhão amedrontou o povo. Para Maquiavel, o Príncipe tem que ser temido, se desejar ser amado. Aqui, o povo pensou diferente. Venceu o medo e resolveu acreditar em um sonho de liberdade. A maioria silenciosa rebelou-se. Poder demais, assusta!