Fantástico: Comando Vermelho comanda Cabedelo à distância e infiltra crime organizado na Prefeitura

PF e MP realizaram mais de dez operações no município; prejuízo estimado aos cofres públicos chega a R$ 270 milhões

Imagem: Reprodução / TV Globo

A cidade de Cabedelo, no litoral paraibano, vive o que autoridades descrevem como um colapso institucional. A mais de 2 mil quilômetros de distância, uma facção criminosa instalada no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, passou a ditar regras, monitorar ruas e interferir diretamente na administração municipal — incluindo a Prefeitura e a Câmara de Vereadores.

A Polícia Federal e o Ministério Público já realizaram mais de dez operações para combater a corrupção e o crime organizado no município de mais de 60 mil habitantes. As investigações identificaram que o Comando Vermelho se infiltrou em pontos estratégicos da gestão pública local.

“A cidade de Cabedelo, infelizmente, vive um colapso institucional”, afirmou o delegado regional da Polícia Federal na Paraíba, João Marcos Gomes Cruz Silva ao Fantástico, da TV Globo. Para o procurador-geral de Justiça do MP-PB, Leonardo Quintans, “a sociedade fica refém, perde sua liberdade e passa a ser comandada por esse poder paralelo”.

O homem por trás do esquema

No centro das investigações está Flávio de Lima Monteiro, o Fatoka, 43 anos. Ele começou na facção Nova Okaida, na Paraíba, e fundou a Tropa do Amigão, um dos braços do Comando Vermelho no Nordeste. Contra ele, há 13 mandados de prisão por tráfico, homicídios e organização criminosa.

Fatoka chegou a ser preso no Presídio de Segurança Máxima da Paraíba, mas fugiu em setembro de 2018 em uma evasão em massa de 92 detentos com uso de explosivos. Capturado novamente, obteve medida judicial para liberdade com tornozeleira eletrônica em 2022 — e no mesmo dia em que o dispositivo foi instalado, ele o rompeu e fugiu para o Rio de Janeiro, onde permanece foragido.

De dentro do Complexo do Alemão, Fatoka monitora Cabedelo por meio de câmeras clandestinas instaladas em postes, árvores e residências — chamadas pelos criminosos de “besouros”. Áudios obtidos pelas investigações revelam a estrutura do monitoramento: “Tem 30 câmeras geral”. Em outro trecho, o próprio líder resume seu poder: “Lá nas áreas, só cai uma folha se eu disser que sim”.

As investigações também apontam planos de expansão para o bairro do Bessa, em João Pessoa. Em áudio, Fatoka orienta: “O que está faltando de nós é ponteamento no Bessa. Aquele quadrado todinho.” O termo se refere ao mapeamento de território e à eliminação de rivais.

Gabinetes tomados pelo crime

O esquema ultrapassou as ruas e chegou aos gabinetes públicos. Segundo as investigações, a facção utilizou a empresa Lemon Terceirização e Serviços Ltda. para desviar recursos municipais, infiltrar parentes e aliados na prefeitura e na Câmara de Vereadores, e manter funcionários fantasmas cujos salários eram revertidos para atividades ilícitas. O prejuízo estimado aos cofres públicos chega a R$ 270 milhões.

Ariadna Cordeiro Barbosa, identificada como gerente financeira da facção, afirmou em depoimento que as indicações de Fatoka eram aceitas automaticamente: “Assim que você chegava lá, dizia quem era a indicação, ela botava na folha. Indicação FTK. Todas as vezes [a pessoa era admitida]”.

Em contrapartida, a facção garantia segurança aos gestores em áreas dominadas pelo grupo e vetava a entrada de opositores políticos no município.

Quatro prefeitos investigados

O cenário político de Cabedelo reflete a profundidade da crise. Os últimos quatro chefes do Executivo municipal são investigados: Leto Viana renunciou ao cargo enquanto estava preso; André Coutinho teve o mandato cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral; Edvaldo Neto foi afastado 48 horas após a eleição; e Vitor Hugo tornou-se inelegível. A cidade é administrada atualmente por José Pereira, presidente da Câmara de Vereadores, que assumiu o posto interinamente.

As defesas de André Coutinho, Edvaldo Neto e Vitor Hugo negam qualquer envolvimento com o crime organizado e afirmam que seus clientes são inocentes. A defesa de Leto Viana não se manifestou.

Enquanto os recursos públicos eram desviados, equipamentos como quadras esportivas e unidades de saúde ficaram abandonados ou subutilizados. O procurador do município, Leonardo Nóbrega, informou que o contrato com a Lemon será anulado, com modulação para não interromper serviços prestados por mais de 600 funcionários.

Em nota, a empresa Lemon afirmou empregar mais de 700 pessoas em Cabedelo, exigir certidões criminais negativas desde 2024 e colaborar com as investigações.

A defesa de Fatoka declarou não haver elementos probatórios que o vinculem aos fatos narrados. Segundo a polícia, ele permanece foragido no Complexo do Alemão.

Confira a reportagem completa aqui. 

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