“Sorriam, nós vamos sorrir!”

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Por Márcia Batista da Fonseca (colaboradora convidada)

Recentemente o Brasil viveu uma alegria coletiva com a consagração do filme “Ainda estou aqui” de Walter Salles, protagonizado por Fernanda Torres, na maior festa do cinema mundial, o Oscar. A festa americana concedeu ao filme brasileiro o prêmio de melhor filme internacional, depois de uma sequência de outros prêmios e do trabalho árduo dos idealizadores do filme em apresentá-lo internacionalmente. O que fica de mais belo na consagração do primeiro Oscar para o Brasil é a história de Eunice Paiva, uma mulher que lutou, sem perder a leveza e o sorriso diante de tudo que a vida lhe tirou.

A escritora francesa Marguerite Duras dizia que escrever é gritar sem ruído. Eunice, já formada em letras, em 1978 aos 47 anos concluiu o curso de direito, depois de ver sua família devastada pelo sumiço do seu esposo nas mãos da ditadura militar, o Deputado Rubens Paiva. Ela usou sua expertise para sustentar sua família e lutar por direitos humanos. Documentou, escreveu e moveu ações para a proteção dos povos indígenas e tornou-se uma das maiores ativistas no país pela promulgação da Lei 9140/95, a lei que reconhece como mortas pelo estado brasileiro, pessoas desaparecidas, em razão de atividade política. Celebrar uma história como a de Eunice Paiva é colocar no centro das discussões qual o papel da mulher na sociedade.

Diversas vezes Eunice foi silenciada, mas continuou sua luta. Imaginemos esta situação atualmente, em tempos em que conhecemos os conceitos de “Gaslighting”, “Mansplaining”, “Manterrupting, “Slutshaming”, “Bropriating”, “cultura do estupro” e “feminicídio”. Apesar de toda a evolução ainda existe uma verdadeira sofisticação de estratégias para reduzir a mulher a papéis de subordinação na sociedade. Historicamente existem avanços profundos, na esfera econômica, política e social desde a comemoração oficial do Dia Internacional da Mulher, mas, parece que enquanto este dia precisar ser celebrado haverá desigualdades entre mulheres e homens que precisam ser combatidas.

O dia oito de março foi oficializado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975 como sendo o Dia Internacional da Mulher. Mas, em vez de flores, esta comemoração esconde tragédias, como a ocorrida em março de 1911, quando 146 pessoas, a maioria mulheres, perderam suas vidas no incêndio da Companhia de Blusas Triangle, em New York, trabalhando em péssimas condições. Deste martírio, resultaram novos conceitos de responsabilidade social e legislação que ajudaram a melhorar as condições de trabalho no mundo. No Brasil, as conquistas femininas começam a aparecer após o direito ao voto, em 24 de fevereiro de 1932, ainda com menos de cem anos.

Assim como Eunice Paiva, muitas mulheres no Brasil se escolarizam e são chefes de família. De acordo com o Censo da Educação Superior (2024) na média dos cursos universitários do Brasil a maioria dos estudantes, ou seja, 57% são mulheres e 59,4% dos concluintes em cursos de graduação também são mulheres. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2024) aponta que 50,8% dos lares são chefiados por mulheres no Brasil, porém 21% das mulheres perfazem em média salários menores que os dos homens. E estes números não são exclusivos do Brasil, dentre os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), homens em média ganham 13,5% a mais que as mulheres, realizando a mesma tarefa laboral.

Além disso, existem traços culturais que são explorados impedindo o avanço das mulheres. Por exemplo, sobre o cuidado, são as mulheres na sua grande maioria que cuidam dos filhos e parentes, o IBGE (2024) destaca que principalmente em economias em desenvolvimento o volume de horas que as mulheres dedicam ao cuidado de outras pessoas e às tarefas domésticas é o dobro do número de horas que os homens dedicam as mesmas tarefas. E essa desigualdade não é compensada nem emocionalmente, nem financeiramente. É um trabalho invisível, porém fundamental nas relações econômicas.

São inúmeros dos desafios para as mulheres que enfrentam, a ONU no século XXI  estabeleceu em seus Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS), como seu quinto objetivo, que devemos lutar por alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas, lutando contra todas as formas de violência, práticas nocivas, reconhecimento ao trabalho doméstico e aos cuidados com familiares, enfim garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades para a liderança em todos os níveis de tomada de decisão na vida política, econômica e pública.

Para avançar na direção da equidade de gênero, a sociedade precisa reconhecer e combater as diferenças salariais provocadas por escolaridade, experiência, cargos, tipo de ocupação, raça, local de nascimento e idade. Que este mês de março de 2025 seja mais um momento de reflexão, que mulheres no Brasil e no mundo possam receber flores, possam sorrir e ter maiores garantias acerca de sua liberdade, sem temer por sua existência, pois é o caminho da equidade de gênero que nos garantirá a porta para o desenvolvimento.

“Sorriam, nós vamos sorrir!”

*Márcia Batista da Fonseca é professora titular do Departamento de Economia na Universidade Federal da Paraíba.

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