Juan Vilar: “Backrooms” é experimento falho de um universo fascinante

À convite do portal WSCOM, cineasta resenha longa de estreia do diretor Kane Parsons que explora creepypasta febre em fóruns da internet

Cena de Backrooms (2026) mostra personagem explorando corredores vazios dos espaços liminares criados por Kane Parsons.
Foto: Divulgação

Quando se fala em cinema estadunidense “independente”, há sempre um dilema interessante: diante dos filmes de altíssimo orçamento, que às vezes chegam à casa dos bilhões de reais, como se destacar? Como se estabelecer enquanto autor no país que transformou a técnica cinematográfica em espetáculo para cumprir altíssimos rendimentos econômicos? A resposta do cineasta californiano Kane Parsons foi utilizar a estética do found footage (quando a imagem do filme simula a manipulação dos próprios personagens, como se a câmera pertencesse ao mundo ficcional) e a simulação das câmeras dos anos 1990 para construir seus curta-metragens em animação lançados em 2022, intitulados “The Backrooms”. Talvez, se ele tivesse apostado mais em sua própria estética, agora em Backrooms (2026), estrelado por ninguém menos que Renate Reinsve e Chiwetel Ejiofor, seu longa-metragem de estreia seria mais substancial.

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A primeira cena do filme parece, de certa forma, uma ode a seus influentes curtas-metragens lançados na plataforma YouTube. Vemos a imagem como se fosse gravada por um personagem portando uma câmera nos chamados “espaços liminares” investigados por Parsons: locais que, quando deslocados e isolados de suas funções habituais, nos causam estranhamento. Vemos salas preenchidas por carpete, móveis isolados e luzes fluorescentes amarelas. Nesse momento já se nota um ponto alto do filme: seu design de som primoroso que nos coloca diretamente no centro desses espaços vazios, além de nos posicionar frente aos perigos que espreitam a cada corredor.

Observamos então o desenrolar de uma trama dupla: primeiro o trauma da terapeuta Mary Kline (Renate Reinsve), tendo sido enclausurada pela mãe em estado de paranoia durante a infância. Logo depois, observamos a experiência de Clark (Chiwetel Ejiofor), um vendedor de móveis e arquiteto fracassado, recentemente expulso de casa por sua esposa. É ele quem encontra, no subsolo de sua loja, a passagem (no que se chama de no-clip, o ato de atravessar objetos sólidos, comumente usado para descrever bugs de jogos eletrônicos) para as backrooms.

Esse é um aspectointrodutório interessante sobre o filme: nós o observamos sob a expectativa de que é o arco do personagem Clark que ditará a abertura e o fechamento da narrativa, afinal ele é o focalizador dela e são suas ações investigando as backrooms (em sequências que, por vezes, tornam-se cansativas) que assistimos atentamente, mas na verdade é a experiência de Mary, sua terapeuta, que se estabelece enquanto arco principal: a vemos enclausurada enquanto criança na segunda cena do filme e, ao final, novamente sua vida é posta sob o controle de outras pessoas.

Backrooms, muito mais do que sobre o drama de Clark com seus fracassos pessoais, debruça-se sobre a camada psicológica da personagem interpretada por Renate: sua clausura, sempre inteiramente fora de seu controle. Primeiro criança, pelo controle da sua mãe, e ao final do filme pela empresa secreta de pesquisa, investigadora das backrooms. Apesar disso, percebo em muitos momentos um texto que não sustenta a profundidade da narrativa ou até mesmo a profundidade da experiência visível e audível que o universo que Parsons cria oferece, a ponto de ver um certo desencontro na interpretação de Renate e Chiwetel, diante de um texto que não pareceu estar nem à altura deles enquanto atores nem do universo coletivamente criado ao redor das backrooms.

Visualmente muito potente, tanto em direção de arte quanto em fotografia, o filme tem muito mais força quando adentramos as imagens das câmeras em fita magnética: os pixels que indefinem as coisas que vemos, o zoom óptico, a escuridão, a compensação da luz baixa, todos os recursos fotográficos que deixam apenas sugerido tudo aquilo que nos coloca em estado de suspensão quando acompanhamos a exploração do espaço no filme de horror. Sem dúvidas, a sequência em que Clark, Bobby e Kat exploram o espaço e caem em seu caos é a mais forte do filme. Em seguida, a revelação clara da câmera sobre o declínio de Clark à loucura no espaço, com os seres que ali habitam, parece tirar um pouco desse desconhecido que a imagem “suja” de suas câmeras oferece, e retira boa parte do suspense que o cinema pode oferecer.

A perseguição final com Mary é outro momento potente, a um nível de tensão, e a cena final, que coloca a personagem de Reinsve no estado de repetição desconcertada das backrooms, só reforça a potência desse dispositivo audiovisual, narrativo e estético, mesmo que não tão bem explorado, estabelecendo o filme de Parsons como um experimento memorável, mas falho, sobre esse espaço ficcional mitológico dos espaços liminares.

* Juan Vilar é diretor de “Fragmentária” e “Sick Of Moving Images”, curtas selecionados pro Curta Bangüê II e III e pro Fest Aruanda do Audiovisual Internacional da Paraíba. Atualmente trabalha em “Vórtice” seu primeiro filme de ficção.

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