Quando se fala em cinema estadunidense “independente”, há sempre um dilema interessante: diante dos filmes de altíssimo orçamento, que às vezes chegam à casa dos bilhões de reais, como se destacar? Como se estabelecer enquanto autor no país que transformou a técnica cinematográfica em espetáculo para cumprir altíssimos rendimentos econômicos? A resposta do cineasta californiano Kane Parsons foi utilizar a estética do ‘found footage’ (quando a imagem do filme simula a manipulação dos próprios personagens, como se a câmera pertencesse ao mundo ficcional) e a simulação das câmeras dos anos 1990 para construir seus curta-metragens em animação lançados em 2022, intitulados “The Backrooms”. Talvez, se ele tivesse apostado mais em sua própria estética, agora em Backrooms (2026), estrelado por ninguém menos que Renate Reinsve e Chiwetel Ejiofor, seu longa-metragem de estreia seria mais substancial.
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A primeira cena do filme parece, de certa forma, uma ode à seus influentes curtas-metragens lançados na plataforma YouTube. Vemos a imagem como se fosse gravada por um personagem portando uma câmera nos chamados ‘espaços liminares’ investigados por Parsons: locais que, quando deslocados e isolados de suas funções habituais, nos causam estranhamento. Vemos salas preenchidas por carpete, móveis isolados e luzes fluorescentes amarelas. Nesse momento já nota-se um ponto alto do filme: seu design de som primoroso que nos coloca diretamente no centro desses espaços vazios, além de nos posicionar frente aos perigos que espreitam a cada corredor.
Observamos então o desenrolar de uma trama dupla: primeiro o trauma da terapeuta Mary Kline (Renate Reinsvee), tendo sido enclausurada pela mãe em estado de paranoia durante a infância. Logo depois, observamos a experiência de Clark (Chiwetel Ejiofor), um vendedor de móveis e arquiteto fracassado, recentemente expulso de casa por sua esposa. É ele quem encontra, no subsolo de sua loja, a passagem (no que chama-se de ‘no-clip’, o ato de atravessar objetos sólidos, comumente usado para descrever bugs de jogos eletrônicos) para as backrooms.
Esse é um aspecto interessante sobre o filme: o observamos sob a expectativa de que é o arco do personagem Clark que ditará a abertura e fechamento da narrativa, afinal ele é focalizador da mesma e são suas ações investigando as backrooms (em sequências que, por vezes, tornam-se cansativas) que assistimos ao filme atentamente, mas na verdade é a experiência de Mary, sua terapeuta, que estabelece-se enquanto arco principal: a vemos enclausurada enquanto criança na segunda cena do filme e, ao final, novamente sua vida é posta sob o controle de outras pessoas.
Backrooms, muito mais do que sobre o drama de Clark com seus fracassos pessoais, debruça-se sobre a camada psicológica da personagem interpretada por Renate: sua clausura, sempre inteiramente fora de seu controle. Primeiro criança, pelo controle da sua mãe, e ao final do filme pela empresa secreta de pesquisa, investigadora das backrooms. Apesar disso, percebo em muitos momentos um texto que não sustenta a profundidade de narrativa ou até mesmo a profundidade da experiência visível e audível que o universo que Parsons cria oferece, a ponto de ver um certo desencontro na interpretação de Renate e Chiwetel, diante de um texto que não pareceu estar nem à altura deles enquanto atores nem do universo coletivamente criado ao redor das backrooms.
Visualmente muito potente, tanto em direção de arte quanto em fotografia, o filme tem muito mais força quando adentramos às imagens das câmeras em fita magnética: os pixels que indefinem as coisas que vemos, o zoom óptico, a escuridão, a compensação da luz baixa, todos os recursos fotográficos que deixam apenas sugerido tudo aquilo que nos coloca em estado de suspensão quando acompanhamos a exploração do espaço no filme de horror. Sem dúvidas, a sequência em que Clark, Bobby e Kat exploram o espaço e caem em seu caos é a mais forte do filme. Em seguida, a revelação clara da câmera sobre o declínio de Clark à loucura no espaço, com os seres que ali habitam, parece tirar um pouco desse desconhecido que a imagem “suja” de suas câmeras oferecem, e retiram boa parte do suspense que o cinema pode oferecer.
A perseguição final com Mary é outro momento potente, a um nível de tensão, e a cena final, que coloca a personagem de Reinsve no estado de repetição desconcertada das backrooms só reforçam a potência desse dispositivo audiovisual, narrativo e estético, mesmo que não tão bem explorado, estabelecendo o filme de Parsons como um experimento memorável, mas falho, sobre esse espaço ficcional mitológico dos espaços liminares.
* Juan Vilar é diretor de “Fragmentária” e “Sick Of Moving Images”, curtas selecionados pro Curta Bangüê II e III e pro Fest Aruanda do Audiovisual Internacional da Paraíba. Atualmente trabalha em “Vórtice” seu primeiro filme de ficção.
