Trump nega retaliação ao Pix, mas exige que sistema concorra com gigantes americanas

Donald Trump
Foto: Casa Branca / EPA / EFE

O governo de Donald Trump negou qualquer intenção de extinguir ou retaliar o Pix, após o anúncio da nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. No entanto, a gestão norte-americana defende que empresas dos Estados Unidos disputem o mercado brasileiro de pagamentos em condições equivalentes às do sistema operado pelo Banco Central. A posição foi revelada por um alto funcionário da administração à Folha de S.Paulo, após o Pix virar alvo de análise pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) em uma investigação comercial baseada na Seção 301.

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De acordo com o representante, Washington reconhece a importância do Pix para a população brasileira e não busca impedir seu funcionamento. A preocupação dos Estados Unidos estaria relacionada a um possível tratamento diferenciado concedido ao sistema público diante de serviços oferecidos por empresas privadas americanas.

O funcionário declarou que o objetivo do governo Trump é evitar que companhias dos Estados Unidos sejam colocadas em desvantagem comercial enquanto uma infraestrutura administrada pelo Estado brasileiro recebe condições consideradas mais favoráveis. Ele, porém, não detalhou quais mudanças seriam esperadas nem apontou medidas concretas para resolver o impasse.

Segundo o representante norte-americano, empresas dos Estados Unidos também não deveriam ser obrigadas a promover ou utilizar o Pix em suas operações no Brasil. Na avaliação de Washington, o sistema brasileiro deveria competir com meios privados de pagamento sob as mesmas bases regulatórias e comerciais.

Pix entra em investigação comercial dos Estados Unidos

O Pix foi incluído pelo USTR na investigação baseada na Seção 301, instrumento utilizado pelos Estados Unidos para examinar práticas estrangeiras consideradas prejudiciais ao comércio americano. O procedimento pode resultar em tarifas, restrições comerciais ou outras medidas de retaliação.

Nas audiências realizadas durante a investigação, representantes brasileiros e americanos defenderam o sistema criado pelo Banco Central. Os argumentos destacaram que o Pix ampliou a concorrência no setor financeiro, reduziu custos para consumidores e empresas e abriu oportunidades para companhias estrangeiras, inclusive dos Estados Unidos.

A defesa brasileira sustenta que o Pix funciona como infraestrutura pública digital e não como empresa comercial. Instituições financeiras e plataformas de pagamento privadas podem utilizar a rede para oferecer serviços aos clientes, o que teria ampliado o número de participantes no mercado.

Durante as conversas que antecederam a confirmação da tarifa de 25%, autoridades brasileiras rejeitaram incluir o Pix em uma eventual negociação comercial com Washington. O governo federal voltou a defender o sistema após o anúncio da sobretaxa.

“O Pix é um patrimônio do nosso povo e referência internacional de infraestrutura pública digital. No Brasil, não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas”, afirmou o governo em comunicado.

Pix se consolida como principal meio de pagamento do Brasil

Lançado em novembro de 2020, o Pix tornou-se o meio de pagamento mais utilizado pelos brasileiros. Em 5 de dezembro de 2025, a plataforma registrou o recorde de 313,3 milhões de transações em apenas um dia.

O sistema reúne mais de 170 milhões de pessoas cadastradas, número superior à população economicamente ativa do Brasil, estimada em aproximadamente 110 milhões. A expansão foi impulsionada pela gratuidade das transferências para pessoas físicas, pela disponibilidade durante 24 horas e pela liquidação praticamente imediata das operações.

Ao longo dos últimos anos, o Banco Central também ampliou as funcionalidades da ferramenta. Entre as modalidades disponíveis estão o Pix agendado, o Pix por aproximação e o Pix automático, desenvolvido para pagamentos recorrentes, como mensalidades, assinaturas e contas de serviços.

A popularização do sistema alterou a dinâmica do mercado de pagamentos ao reduzir a dependência de cartões, transferências bancárias tradicionais e operações feitas por boletos. Pequenos comerciantes e trabalhadores autônomos também passaram a receber pagamentos sem a necessidade de máquinas de cartão ou contratos com empresas adquirentes.

Sistemas nacionais pressionam Visa e Mastercard

Autoridades brasileiras avaliam que o questionamento dos Estados Unidos ao Pix também transmite um recado a outros países interessados em desenvolver sistemas públicos e gratuitos de pagamentos instantâneos. Diferentes governos estudam modelos semelhantes ao brasileiro como alternativa às redes privadas internacionais.

A expansão de infraestruturas nacionais e regionais pode diminuir a participação de empresas americanas no processamento de pagamentos. Visa e Mastercard dominam parte significativa do mercado global de cartões e obtêm receitas por meio de taxas cobradas em transações realizadas dentro e fora dos Estados Unidos.

O avanço de sistemas considerados soberanos, especialmente em mercados como o europeu, representa uma ameaça à rentabilidade dessas companhias. Em seus relatórios anuais, Visa e Mastercard apontaram o tratamento preferencial concedido a plataformas domésticas de pagamento como um risco para seus negócios.

O embate envolvendo o Pix ocorre em meio ao aumento das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos. Embora Washington negue a intenção de extinguir o sistema, a inclusão da plataforma na investigação comercial mantém a infraestrutura brasileira no centro das divergências entre os dois países.

Crédito: Brasil 247

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