Em 1963, ingressei no mais tradicional e prestigiado estabelecimento de ensino de João Pessoa: o Liceu Paraibano. Ali vivi uma das etapas mais marcantes da minha formação intelectual e humana. Cursei os dois últimos anos do ginásio e as três séries do curso Clássico, destinado aos estudantes que pretendiam seguir as Ciências Humanas e Sociais. Os que optavam pelas áreas de Exatas ou Biológicas cursavam o Científico, dividido, na linguagem da época, entre o “científico de engenharia” e o “científico de medicina”.
Fundado em 1836, o Liceu nasceu no antigo Convento de São Gonçalo, prédio que mais tarde abrigaria a Faculdade de Direito da UFPB, ao lado do Palácio da Redenção. Em 1937, durante o governo de Argemiro de Figueiredo, ganhou a imponente sede da Avenida Getúlio Vargas, um dos mais belos edifícios públicos da capital e símbolo da educação paraibana.
O cronista José Rafael de Menezes definiu o Liceu como a “matriz intelectual da Paraíba”. A expressão faz justiça à sua história. Poucas instituições exerceram tamanha influência na formação das lideranças do Estado. Por suas salas de aula passaram governadores, juristas, escritores, economistas e homens públicos que marcaram a vida paraibana, entre eles José Américo de Almeida, Argemiro de Figueiredo, João Pessoa, João Agripino, Celso Furtado e Abelardo Jurema. Augusto dos Anjos, orgulho maior da poesia paraibana, foi aluno e, mais tarde, professor da casa.
Quando ali estudei, na década de 1960, o Liceu possuía o mais respeitado corpo docente da Paraíba. Nossos mestres eram juízes, médicos, advogados, engenheiros e professores universitários que transformavam suas aulas em verdadeiras lições de cultura e cidadania. Guardo viva a lembrança de Wilson da Cunha, Milton Viana, Afonso Pereira, Fernando Barbosa, José Otávio de Arruda Melo, da inesquecível diretora Daura Santiago Rangel, além do Dr. Quinídio, Professor Perez, Aníbal Moura e Argentina Pereira.
Mas o Liceu era muito mais que um centro de excelência educacional. Era também o coração do movimento estudantil paraibano. Seus corredores fervilhavam de debates políticos, inquietações e sonhos de transformação social. Nem mesmo a ditadura militar conseguiu sufocar esse espírito. A extinção dos diretórios estudantis e sua substituição por grêmios literários apenas alterou a forma de organização dos estudantes; a disposição para lutar permaneceu intacta.
Participei intensamente dessa experiência. Fui Diretor de Arte e Cultura do Grêmio Literário Daura Santiago Rangel e disputei a vice-presidência da entidade. Em tempos de vigilância e repressão, cada reunião, cada debate e cada atividade cultural representavam um exercício de coragem e de compromisso com a liberdade.
Sempre que volto às lembranças daqueles anos, compreendo que o maior legado do Liceu não foi apenas o conhecimento transmitido em suas salas de aula, mas a formação de uma consciência crítica. Ali aprendemos que cidadania exige participação, que a democracia se fortalece pela coragem de seus jovens e que a educação alcança sua plenitude quando forma homens e mulheres capazes de pensar, servir e transformar a sociedade. Por isso, o Liceu Paraibano permanece, para mim, não apenas como uma escola, mas como um dos capítulos mais luminosos da minha vida.

