Fugir dos debates também é uma escolha política, por Rui Leitão

Não, eu não censuro o candidato Flávio Bolsonaro por recusar a participação nos debates televisivos programados para este segundo turno da campanha presidencial.

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Afinal, ele tem o direito de avaliar os riscos de sua exposição pública e decidir como pretende conduzir sua campanha. O que merece reflexão, entretanto, são as razões dessa recusa e o que ela representa para o eleitor brasileiro.

A ausência nos debates pode ser interpretada como uma estratégia de prudência eleitoral. Afinal, não é a primeira vez que o candidato se vê diante do desafio de enfrentar o contraditório em uma disputa política de grande repercussão. Sua participação na eleição para a Prefeitura do Rio de Janeiro já foi objeto de questionamentos sobre sua desenvoltura diante das exigências de uma disputa dessa natureza. Agora, diante da responsabilidade de disputar a Presidência da República, a cobrança da sociedade é ainda maior.

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É uma pena que tenhamos chegado a esse ponto. Os debates constituem uma das mais importantes oportunidades para que os candidatos apresentem à população seus projetos de nação, demonstrem como pretendem enfrentar os desafios de governar um país tão complexo como o Brasil e esclareçam suas posições sobre os grandes problemas nacionais.

É também o momento de explicitar compromissos com a democracia, a soberania nacional, o desenvolvimento econômico e a justiça social. Mais do que isso, o confronto direto permite que cada candidato responda às críticas do adversário, esclareça episódios controversos de sua trajetória e ofereça ao eleitor elementos para avaliar suas propostas e sua capacidade de conduzir os destinos do país.

Ao fugir desse compromisso, Flávio Bolsonaro deixa de se submeter a uma oportunidade importante de prestar contas à sociedade. O eleitor tem o direito de conhecer não apenas as promessas de um candidato, mas também seus argumentos, suas convicções e sua capacidade de responder a perguntas que não foram previamente combinadas.

É possível que os coordenadores de sua campanha tenham concluído que a exposição nos debates representa um risco maior do que os benefícios que poderia proporcionar. Nessa hipótese, a decisão seria resultado de um cálculo eleitoral: preservar a imagem do candidato, evitar situações constrangedoras e reduzir os riscos de declarações capazes de comprometer sua estratégia.

Mas há uma questão que não pode ser ignorada: até que ponto a preservação da imagem de um candidato pode se sobrepor ao direito da população de conhecer quem pretende governá-la?

A Presidência da República não é um cargo que se possa exercer protegido das perguntas incômodas, das críticas da oposição e das cobranças da sociedade. Governar exige capacidade de argumentação, conhecimento dos problemas nacionais, disposição para o diálogo e responsabilidade diante das próprias palavras.

Se a participação em um debate eleitoral é considerada um risco para a imagem de um candidato, cabe ao eleitor perguntar o que essa ausência significa. Afinal, quem pretende governar o Brasil precisa estar preparado para enfrentar, publicamente, os desafios que o cargo impõe. E desta vez não será um debate em que um candidato enfrenta quatro adversários ao mesmo tempo. Será um confronto entre os dois que o eleitorado decidiu que disputassem o segundo turno.

Fugir dos debates pode ser uma estratégia de campanha. Mas não substitui a obrigação de demonstrar ao povo brasileiro que se está preparado para governar o país.

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