Relativismo moral, o caso Master e as eleições de 2026: quando a ética depende de quem pratica o ato

CVM condena Daniel Vorcaro e Banco Master por fraude e aplica R$ 201 milhões em multas
(Foto: Reprodução / Esfera)

O relativismo moral parte, em sentido amplo, da ideia de que os juízos sobre o certo e o errado não necessariamente decorrem de princípios morais universais, podendo variar conforme valores, grupos, circunstâncias históricas ou contextos sociais. Transportada para a política, essa discussão assume uma dimensão particularmente problemática, uma sociedade pode começar a avaliar uma mesma conduta de maneiras diferentes dependendo de quem a pratica.

O caso envolvendo o Banco Master oferece um terreno importante para discutir esse problema no Brasil contemporâneo. Não porque todos os fatos investigados já estejam definitivamente esclarecidos, mas porque o episódio envolve simultaneamente sistema financeiro, empresários, agentes públicos, instituições jurídicas e relações de poder.

Em 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras instituições do conglomerado. Segundo a própria autoridade monetária, a medida decorreu de uma “grave crise de liquidez”, do comprometimento significativo da situação econômico-financeira e de graves violações das normas do Sistema Financeiro Nacional. O conglomerado representava 0,57% dos ativos e 0,55% das captações do sistema financeiro.

A partir daí, porém, o episódio ultrapassou os limites de uma crise bancária. Investigações e reportagens passaram a revelar relações, contratos, mensagens e contatos envolvendo Daniel Vorcaro e pessoas próximas a integrantes de diferentes instituições e grupos políticos. Parte desses fatos continua submetida a investigação ou controvérsia, e seria inadequado transformar relações pessoais, profissionais ou institucionais, isoladamente, em prova de ilegalidade.

É justamente aí que aparece a questão do relativismo moral. Uma democracia constitucional pressupõe algo muito próximo da universalização das regras: aquilo que consideramos impróprio quando praticado por um adversário deveria continuar sendo considerado impróprio quando praticado por alguém de nosso próprio grupo.

Pode-se formular esse princípio de maneira quase kantiana: uma regra moral somente possui força genuína quando estamos dispostos a aplicá-la independentemente da identidade do beneficiário.

O problema surge quando a lógica é invertida. Em lugar de perguntar “essa conduta é aceitável?”, pergunta-se “quem praticou essa conduta?”.Forma-se então uma espécie de moralidade condiciona. Se o adversário faz, é corrupção; se o aliado faz, é uma circunstância que precisa ser contextualizada. Se o adversário mantém relações com empresários poderosos, existe captura do Estado; se o aliado mantém relações semelhantes, trata-se apenas de uma relação profissional ou institucional. Se uma decisão beneficia o outro campo político, existe abuso institucional; se beneficia o próprio campo, prevaleceu o Estado de Direito.

Essa lógica não pertence exclusivamente à direita ou à esquerda. Ela pode ser encontrada em diferentes grupos políticos. O elemento comum é a substituição de um padrão impessoal de julgamento por outro baseado na identidade política dos envolvidos. Por isso, talvez a dimensão mais importante do caso Master seja institucional.

A questão fundamental não deveria ser saber inicialmente se determinado personagem pertence ao governo, à oposição, ao Judiciário ou ao mercado financeiro. A pergunta deveria ser mais simples: as mesmas regras estão sendo aplicadas a todos?

Essa pergunta torna-se particularmente relevante quando investigações alcançam pessoas próximas aos centros de poder. Reportagens recentes, por exemplo, divulgaram mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro relacionadas a contratos profissionais e contatos envolvendo pessoas ligadas a autoridades públicas. Tais informações precisam ser examinadas individualmente e submetidas ao devido processo; contratos ou relações profissionais não constituem, por si mesmos, prova de ilícito.

Mas a existência dessas controvérsias produz uma questão institucional legítima: como assegurar que relações de proximidade não interfiram na investigação e no julgamento dos fatos? É exatamente nessa situação que instituições fortes se diferenciam de instituições personalistas.

Uma instituição forte não precisa provar que seus integrantes são moralmente superiores às demais pessoas. Precisa demonstrar que possui mecanismos capazes de administrar conflitos de interesse, garantir transparência, preservar a imparcialidade e permitir investigação independente.

O relativismo político torna-se especialmente perigoso quando encontra aquilo que poderíamos chamar de seletividade moral. Nesse momento, já não estamos discutindo propriamente princípios. Estamos discutindo pertencimento.

A moral deixa de funcionar como restrição ao poder e passa a funcionar como instrumento da disputa pelo poder. Essa discussão ganha importância adicional porque o Brasil está a poucos dias das eleições gerais. O primeiro turno ocorrerá em 4 de outubro de 2026 e eventual segundo turno em 25 de outubro. Segundo o TSE, cerca de 158,7 milhões de eleitores estão aptos a votar.

Nesse ambiente, o caso Master inevitavelmente ingressa no debate eleitoral. E aqui existe um risco adicional.

Em uma campanha altamente polarizada, fatos complexos tendem a ser transformados em instrumentos simples de comunicação política. Cada grupo seleciona as partes do episódio que prejudicam seus adversários e minimiza aquelas que criam dificuldades para seus aliados.

O escândalo deixa então de ser utilizado para perguntar “o que aconteceu com nossas instituições?” e passa a ser utilizado para afirmar “vejam o que o outro lado fez”.

Essa transformação é relevante porque permite que praticamente todos os grupos políticos mantenham intacta sua superioridade moral subjetiva. Cada campo enxerga claramente os desvios do adversário e desenvolve sofisticadas justificativas para acontecimentos semelhantes dentro de seu próprio campo.

As eleições de 2026 oferecem, portanto, uma oportunidade para uma discussão que ultrapassa candidatos específicos. Uma democracia não depende apenas da existência de eleições periódicas. Depende também da existência de cidadãos capazes de exigir padrões minimamente coerentes de comportamento público.

Mais Posts

Tem certeza de que deseja desbloquear esta publicação?
Desbloquear esquerda : 0
Tem certeza de que deseja cancelar a assinatura?
Controle sua privacidade
Nosso site utiliza cookies para melhorar a navegação. Política de Privacidade – Termos de Uso