Eleições 2026: entre o mundo que existe e o mundo que percebemos

As eleições presidenciais brasileiras de 2026 podem ser analisadas por diferentes perspectivas: econômica, sociológica, institucional e política. Existe, entretanto, uma abordagem menos convencional e particularmente útil para compreender a polarização contemporânea que é recorrer à filosofia de Immanuel Kant e à sua explicação sobre a maneira pela qual o ser humano conhece a realidade.

Essa aproximação não significa transformar Kant em um teórico das eleições modernas. O filósofo morreu em 1804 e evidentemente nada poderia dizer sobre redes sociais, algoritmos, pesquisas eleitorais ou campanhas digitais. O que se pode fazer é utilizar sua teoria do conhecimento como uma lente para compreender um fenômeno político contemporâneo, qual seja, pessoas submetidas aparentemente à mesma realidade social podem construir interpretações radicalmente diferentes dessa realidade.

A questão recente sobre o caso Master no Supremo Tribunal Federal é um exemplo de que uma realidade pode ser entendida de forma diferente por pessoas com visões políticas diferentes.

Essa questão ganha especial importância no Brasil de 2026. A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto, e o primeiro turno ocorrerá em 4 de outubro. As pesquisas mais recentes mostram uma disputa polarizada, especialmente entre Lula e Flávio Bolsonaro, embora existam diversos outros candidatos. Levantamentos divulgados colocam Lula à frente no primeiro turno, enquanto alguns cenários de segundo turno apresentam diferenças relativamente pequenas entre os dois principais concorrentes.

Mais interessante do que perguntar apenas quem vencerá a eleição talvez seja perguntar,  como milhões de brasileiros podem observar o mesmo país e chegar a conclusões tão diferentes sobre aquilo que está acontecendo? É justamente nesse ponto que Kant se torna surpreendentemente atual. Uma das grandes transformações promovidas por Kant na filosofia foi modificar a relação entre sujeito e objeto.

Em termos simplificados, Kant distingue aquilo que podemos conhecer, o fenômeno, daquilo que existiria independentemente das condições pelas quais conhecemos, a coisa em si (Ding an sich).

Isso não significa que Kant acreditasse que cada pessoa pudesse simplesmente inventar sua própria realidade. Essa seria uma interpretação equivocada. Sua filosofia não equivale ao relativismo contemporâneo segundo o qual “cada um possui sua própria verdade”.

A ideia é mais sofisticada. Nós não temos acesso à realidade independentemente de todas as condições do conhecimento humano. Aquilo que conhecemos aparece organizado segundo estruturas através das quais nossa mente torna a experiência inteligível.

Podemos transportar essa questão, com as devidas cautelas, para a política. Existe uma realidade econômica, social e institucional brasileira. Existem inflação, desemprego, renda, criminalidade, crescimento econômico, programas sociais, dívida pública, impostos, investimentos e serviços públicos. Muitos desses fenômenos podem ser medidos.

Mas a realidade política não chega ao eleitor em estado puro. Ela precisa ser percebida, interpretada e organizada. O eleitor não observa simplesmente o Brasil, ele interpreta o Brasil. Portanto, a divergência política não nasce necessariamente da ausência de fatos. Muitas vezes ela nasce da atribuição de significados diferentes aos mesmos fatos.

É aqui que a analogia kantiana se torna interessante o eleitor não vota simplesmente no país que existe; ele vota no país que consegue perceber e interpretar.

Kant sustentava que nossa experiência é organizada por estruturas do entendimento. Evidentemente seria filosoficamente incorreto afirmar que “esquerda” e “direita” são categorias kantianas. Não são. Mas podemos utilizar uma analogia.

Na política contemporânea, ideologia, identidade partidária, religião, classe social, experiências familiares, educação, situação econômica e pertencimento a determinados grupos funcionam como filtros interpretativos.

Um eleitor fortemente identificado com a esquerda e outro fortemente identificado com a direita podem receber a mesma informação e imediatamente incorporá-la a narrativas diferentes. Podemos representar o processo de maneira simples: Fato → percepção → interpretação → narrativa → decisão eleitoral.

A política ocorre principalmente nos três elementos intermediários. É por isso que apresentar estatísticas não necessariamente modifica uma preferência política. Quando uma informação contradiz profundamente a visão de mundo previamente construída pelo indivíduo, ela pode ser reinterpretada para preservar a coerência dessa visão.

O debate eleitoral passa, portanto, a envolver não somente uma disputa sobre fatos, mas uma disputa sobre as categorias através das quais os fatos serão interpretados. A polarização não deve ser interpretada simplesmente como discordância sobre políticas públicas. Ela pode representar algo mais profundo, uma divergência sobre a própria descrição da realidade brasileira.

É nesse ponto que uma filosofia formulada há mais de dois séculos encontra diretamente a democracia brasileira contemporânea. Kant nos ajuda a perceber que a liberdade política não depende somente do direito de escolher. Ela depende também da capacidade de pensar autonomamente antes de escolher. Será que o eleitor mediano brasileiro tem esta capacidade? Acredito muito pouco nisto.

Mais Posts

Tem certeza de que deseja desbloquear esta publicação?
Desbloquear esquerda : 0
Tem certeza de que deseja cancelar a assinatura?
Controle sua privacidade
Nosso site utiliza cookies para melhorar a navegação. Política de PrivacidadeTermos de Uso