Há cidades que crescem porque nasceram para ser grandes. Outras crescem porque passaram a ser escolhidas. João Pessoa pertence ao segundo grupo.
A aproximação da marca de um milhão de habitantes representa muito mais do que um dado demográfico. Revela uma mudança de escala que já pode ser percebida nas ruas, nos bairros, no mercado de trabalho, na economia, na oferta de serviços e, naturalmente, no mercado imobiliário. O IBGE estima que a capital paraibana já tenha quase 900 mil moradores e mantém um ritmo de crescimento superior ao da maioria das capitais brasileiras. Entre 2010 e 2022, João Pessoa registrou o maior crescimento populacional proporcional entre as capitais do Nordeste, enquanto a estimativa mais recente aponta 897,6 mil habitantes em 2025.
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Quando uma cidade passa a ser escolhida por pessoas de diferentes regiões do país para viver, empreender, investir ou criar os filhos, deixa de discutir apenas expansão. Passa a discutir identidade. É exatamente essa mudança que considero mais relevante.
A João Pessoa que caminha para um milhão de habitantes não pode perder a essência da João Pessoa que fez tanta gente decidir viver aqui. Esse talvez seja o maior desafio das próximas décadas.
O crescimento traz oportunidades inegáveis. Atrai investimentos, amplia o mercado consumidor, fortalece o turismo, movimenta o comércio, gera empregos e estimula novos negócios. A cidade se torna economicamente mais dinâmica e diversificada. Ao mesmo tempo, aumenta a pressão sobre mobilidade, infraestrutura, serviços públicos, áreas verdes e espaços de convivência. Crescer deve significar administrar novas demandas sem abrir mão da qualidade de vida que tornou João Pessoa uma referência nacional.
Essa transformação também muda profundamente o papel das construtoras. Durante muitos anos, bastava desenvolver um bom empreendimento em uma localização valorizada e/ou com fluxo de demanda futura. Hoje, essa equação já não responde às necessidades de uma cidade que muda de escala.
Cada novo projeto interfere na paisagem, no trânsito, na dinâmica dos bairros, na circulação de pessoas, na oferta de serviços e na forma como a população ocupa os espaços urbanos.
É por isso que acredito que o mercado imobiliário vive uma transição importante. Estamos deixando de construir apenas edifícios. Estamos ajudando a construir cidade. Essa diferença parece sutil, mas muda completamente a forma de pensar um empreendimento.
A localização continua sendo importante, mas já não basta. Um endereço passa a ser valorizado também pela capacidade de oferecer caminhabilidade, integração com áreas verdes, acesso a serviços, mobilidade, convivência e experiências que façam sentido para o cotidiano das pessoas.
Quando um empreendimento dialoga com o bairro, respeita o entorno e contribui para qualificar os espaços públicos, ele deixa de beneficiar apenas seus moradores. Passa a produzir valor para toda a cidade.
Essa talvez seja a maior mudança de mentalidade que o setor imobiliário precisará consolidar nos próximos anos. Construir bem continuará sendo obrigação. Construir com responsabilidade urbana será um diferencial.
João Pessoa vive hoje um momento semelhante ao que outras cidades brasileiras experimentaram quando ultrapassaram determinados patamares de crescimento. A diferença é que ainda temos uma vantagem preciosa: podemos aprender com os acertos e, principalmente, com os erros cometidos por quem cresceu antes de nós.
Não precisamos esperar que a cidade enfrente congestionamentos permanentes, perda de áreas verdes ou uma ocupação desordenada para começar a pensar diferente. Planejamento urbano não é uma resposta ao crescimento. É a condição para que ele aconteça de forma equilibrada.
Costumo dizer que cidades não são definidas apenas pela quantidade de habitantes que possuem, mas pela qualidade das experiências que oferecem a quem vive nelas.
Uma cidade de um milhão de habitantes pode ser impessoal, congestionada e desigual. Ou pode continuar sendo uma cidade onde ainda é possível caminhar, encontrar pessoas nos espaços públicos, conviver com a natureza e reconhecer, nos bairros, uma identidade própria. Essa escolha começa muito antes de alcançarmos esse número; está presente em cada decisão tomada agora em todas as esferas: poder público, na iniciativa privada, nas empresas e em todos aqueles que, de alguma forma, ajudam a desenhar a João Pessoa das próximas décadas.
Por fim, será sempre importante lembrar: a cidade de um milhão não será construída quando o IBGE divulgar uma nova estimativa populacional. Ela já está sendo construída, um projeto de cada vez.
* Meiry França é engenheira civil com mais de 28 anos no mercado imobiliário do Nordeste. Atualmente, é CEO da Bauten Construtora.
