Petrônio redigiu o Satyricon no século I da era cristã, sob o principado neroniano, e teve a genialidade — ou a imprudência, que nos grandes espíritos frequentemente se confundem — de retratar algo que nenhum édito imperial lograria suprimir: o ridículo imortal do novo rico. Dois milênios se consumiram no calendário da civilização. O banquete de Trimalquião, contudo, prossegue sendo servido com obstinada pontualidade.
Para aqueles que não tiveram o prazer de frequentar as páginas do refinado árbitro da elegância romana — arbiter elegantiae, como o designou Tácito nos Annales —, eis o essencial: Trimalquião é um liberto que ascendeu a uma fortuna fabulosa e resolve celebrá-la com um banquete pantagruélico, convocando em torno de si aquela corte de aduladores que só o medo e o interesse são capazes de engendrar com tamanha perfeição. O convívio é pura performance. Cada iguaria que chega à mesa constitui um discurso. Cada gesto, uma proclamação solene de opulência. E ali está Fortunata, sua consorte, que conta dinheiro às arrobas — literalmente, na cena que Petrônio nos oferece com aquela crueldade elegante, de bisturi preciso, que apenas os grandes satiristas da tradição ocidental dominaram com tal mestria. Fortunata não conta o dinheiro para certificar-se do quanto possui. Ela conta para que os outros a vejam contando.
Eis a chave hermenêutica da cena, e eis, por extensão, a chave do nosso tempo.
O rastaquera contemporâneo — vocábulo que, não sem ironia, migrou do Rio da Prata para o português carregando a imagem do sujeito que arrasta o sabre pelo chão numa encenação de nobreza postiça — não inventou coisa alguma. Limitou-se a atualizar o figurino, substituindo os anéis de ouro em todos os dedos e os pratos dispostos em forma de signos zodiacais pela cronografia ostensiva exposta no feed, pelo automóvel estacionado na calçada — porque a garagem não o contemplaria — e pela peregrinação a Dubai, destino eleito não por qualquer virtude intrínseca do emirado, mas porque Dubai é precisamente o lugar que se frequenta quando se deseja ser visto frequentando Dubai.
A distinção entre o rico de antiga data e o novo rico jamais residiu na magnitude da fortuna. Residiu sempre na compulsão pela demonstração.
O rico que já digeriu — usando a digestão aqui em sentido quase espiritual, no registro de quem já assimilou e metabolizou a prosperidade — não carece que o outro ateste o quanto possui. O rastaquera, à semelhança de Fortunata, necessita contar às arrobas, porque sua riqueza existe essencialmente no olhar alheio. Sem a testemunha que a ratifique, ela se dissolve. É uma fortuna de espelho: reflete com generosidade, sustenta com parcimônia. Trata-se, em termos psicanalíticos, não de uma questão de ter, mas de uma questão de ser — e o ser, aqui, só se constitui mediante o reconhecimento do outro, num circuito de validação que nenhuma acumulação material é capaz de interromper.
Petrônio, com a acuidade que distingue os artistas dos meramente talentosos, intuiu que havia, por baixo da camada cômica, uma veia profundamente trágica a percorrer toda aquela ostentação. Trimalquião, num momento de inusitada e desconcertante lucidez — talvez o vinho, talvez a vaidade cansada de si mesma —, solicita aos convivas que ensaiem o seu próprio funeral durante o banquete. Deseja antever a comoção. Quer calcular, com a mesma frieza mercantil com que acumulou sua fortuna, o quantum de lamentos que sua partida irá suscitar. É um homem que chegou à posse de tudo e não sabe o que fazer com tudo, de modo que transforma até a morte — o único acontecimento que resiste à compra — em mais um espetáculo a ser encenado. Há nessa passagem uma melancolia que o riso não recobre inteiramente, e que Petrônio foi demasiado honesto para dissimular.
O rastaquera contemporâneo também cultiva seus funerais ensaiados. São as lives de confissão, as entrevistas de redenção, as narrativas de superação repetidas com a regularidade de um breviário — “vim do nada, hoje o tenho tudo” —, nas quais a miséria pretérita funciona como retroiluminação dramática da prosperidade presente. O sofrimento de outrora converte-se em ativo negociável. A trajetória torna-se o próprio produto. E os seguidores assumem o papel dos convivas do banquete de Petrônio: aplaudem cada prato que é apresentado à mesa com entusiasmo crescente, sem jamais serem, no sentido mais profundo do termo, alimentados.
Não se trata, que fique absolutamente claro, de fustigar quem enriqueceu. A ascensão legítima é uma conquista que merece respeito e que a história das sociedades democráticas consagrou como um valor. O que está em causa não é o ter, mas a sede específica e insaciável de ser visto tendo — uma sede que o dinheiro, paradoxalmente, não apaga, porque ela não é de natureza pecuniária. É sede de reconhecimento, de legitimidade, de pertencimento a um universo que, durante demasiado tempo, ergueu suas portas e recusou a entrada. Nesse sentido, tanto Trimalquião quanto Fortunata merecem, para além do riso que provocam, uma fração generosa de compaixão. Ela que conta as moedas às arrobas porque alguém, em determinado momento formativo de sua existência, lhe disse que ela não valia nada.
Petrônio foi compelido por Nero a suicidar-se em 66 d.C. As fontes relatam que abriu os pulsos com serenidade quase olímpica e, enquanto a vida se esvaía, conversou com os amigos, recitou versos, recusou qualquer gesto que cheirasse a melodrama ou a súplica. Morreu sem encenar a própria morte — o que, dado o tema de sua obra capital, possui uma simetria quase literária. Era, até o último sopro, um homem de gosto irrepreensível.
O Satyricon permaneceu. O banquete de Trimalquião permaneceu. E nós, convivas involuntários deste século tumultuado, continuamos assentados à mesa, percorrendo com o olhar os rostos dos demais comensais e reconhecendo, com aquele desconforto específico que só a identificação produz, que alguns deles nos são assombrosamente familiares.
Cid Gadelha e Xavier