Em conversa com um amigo, ele lamentava a falta de pessoas interessadas em trabalhar em sua empresa e culpava o Bolsa Família por isso. Não me surpreendi e preferi não alimentar a discussão, até porque essa é uma opinião que se manifesta majoritariamente entre integrantes da classe média brasileira. Para muitos, o Bolsa Família é chamado de “bolsa vagabundo” ou “bolsa voto”, ignorando-se que ele é um dos maiores e mais importantes programas de combate à pobreza do mundo e já foi adotado como referência por mais de 40 países.
Sem o Bolsa Família, uma parcela significativa da população brasileira ainda estaria passando fome. Os que criticam o programa ficam indignados porque não encontram mais pessoas dispostas a vender sua força de trabalho por qualquer quantia, em condições próximas à exploração. Na verdade, o que existe é uma demanda por mão de obra barata, o que gera insatisfação à medida que, ao se garantir uma renda mínima para a sobrevivência, o trabalhador passa a ter maior poder de barganha para decidir se aceita ou não as condições de emprego que lhe são oferecidas.
Muitos não conseguem compreender que a fome não é um problema individual, mas sim um problema político. Essa reação não é recente. Ela existe desde 2003, quando o programa foi criado, adotando uma política de transformação social por meio da transferência de renda para famílias em situação de pobreza ou extrema pobreza, com o objetivo de romper o ciclo de miséria entre gerações de brasileiros.
Critica-se o Estado por um suposto desestímulo ao ingresso no mercado de trabalho, sob a alegação de que o programa representa uma ação paternalista que inibe a autossuficiência e o mérito individual. Trata-se, no entanto, de um direito social que amplia a cidadania e se insere em uma lógica de proteção social, contrariando a visão de que seria apenas uma política compensatória de renda mínima. É, portanto, uma política típica de um Estado de bem-estar social.
O Programa Bolsa Família foi criado com o objetivo de contribuir para a superação da pobreza no Brasil por meio de três frentes de atuação: a transferência direta de renda, que promove uma melhoria imediata nas condições de vida das famílias; o acompanhamento de condicionalidades, reforçando o acesso aos serviços básicos de saúde, educação e assistência social, contribuindo para romper o ciclo de pobreza intergeracional; e a oferta de programas complementares, que ampliam as oportunidades de desenvolvimento para as famílias beneficiárias.
A campanha contra o Bolsa Família muitas vezes se apoia na ideia de que o sistema econômico deve continuar se sustentando em profundas desigualdades sociais. Seus críticos buscam desqualificar a reputação dos beneficiários e influenciar a opinião pública contra o programa, seja por desinformação, seja por preconceito. No plano ideológico, parte desses opositores, especialmente aqueles que se percebem em posição intermediária na estrutura social, teme perder status e reduzir a distância que os separa dos mais pobres.
Ninguém afirma que o Bolsa Família seja a solução definitiva para erradicar a pobreza, mas ele representa um avanço importante no combate à exclusão social, ainda que demande aperfeiçoamentos. Esse é um dos motivos pelos quais parte da classe média reage de forma crítica ao programa.