Relatório da PF aponta suspeitas sobre relação entre Toffoli e dono do Banco Master

Documento enviado ao STF cita movimentações de R$ 35 milhões, fundo ligado a empreendimento no Paraná e encontros entre o ministro e Daniel Vorcaro

Dias Toffoli
Ministro Dias Toffoli durante a Sessão Plenária realizada em 20 de junho de 2024. Foto: Andressa Anholete/STF

Um relatório sigiloso da Polícia Federal encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) reúne suspeitas sobre possíveis relações financeiras e pessoais entre o ministro Dias Toffoli e o banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. As informações foram divulgadas pela revista piauí, que teve acesso ao documento de mais de 80 páginas.

Segundo a reportagem, o documento, identificado como Informação de Polícia Judiciária de Análise nº 893171/2026, foi elaborado a partir de dados extraídos do celular de Vorcaro, apreendido no fim de 2025. Entre os pontos analisados pelos investigadores está a possibilidade de Toffoli ter sido o “beneficiário final” ou “proprietário de fato” do Fundo de Investimento em Participações (FIP) Arleen.

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De acordo com a PF, o fundo teria recebido pelo menos R$ 35 milhões de Vorcaro. Posteriormente, os recursos teriam sido direcionados para uma holding registrada nas Ilhas Virgens Britânicas, no Caribe.

O Arleen mantinha participação no Tayayá Aqua Resort, em Ribeirão Claro, no Paraná, empreendimento do qual Toffoli e familiares possuem participação, segundo a reportagem.

Movimentações do fundo

A investigação policial aponta uma sequência de mudanças na estrutura do FIP ao longo de 2025. Em fevereiro daquele ano, o fundo teria passado para o empresário Alberto Leite, proprietário da FS Security e apontado como amigo do ministro.

No mês seguinte, uma holding denominada Egide I foi constituída nas Ilhas Virgens Britânicas. Paralelamente, o regulamento do Arleen teria sido alterado para permitir investimentos fora do país.

Entre novembro e dezembro, ainda segundo o relatório, o fundo liquidou suas cotas e transferiu aproximadamente R$ 34 milhões para a Egide I.

A PF afirma que, analisados conjuntamente, os elementos reunidos indicariam a possibilidade de Toffoli ter figurado como beneficiário final ou proprietário de fato do Arleen e de seus ativos.

A assessoria do ministro, entretanto, negou qualquer irregularidade. Em nota, afirmou que Toffoli “jamais manteve ou teve direta ou indiretamente recursos no exterior” e que nunca realizou operações nas Ilhas Virgens Britânicas.

O gabinete também declarou que o relatório foi arquivado, com decisão transitada em julgado, e que os ministros do STF tiveram conhecimento do conteúdo em reunião realizada em fevereiro de 2026. Segundo a defesa, a Corte deliberou pela inexistência de suspeição.

Mensagens sobre aportes

Mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro também foram analisadas pelos investigadores. Em agosto de 2024, o banqueiro teria demonstrado preocupação com o atraso de recursos destinados ao empreendimento paranaense.

Segundo a reportagem, o empresário acionou o cunhado, Fabiano Zettel, e o ex-ministro Fábio Faria, que mantinha interlocução com Vorcaro. As mensagens indicariam ainda que Toffoli teria sido procurado durante as tratativas.

Em uma das conversas, Zettel mencionou pagamentos de R$ 20 milhões realizados anteriormente e de outros R$ 15 milhões. Posteriormente, escreveu: “Tayayá resolvido”.

O relatório também registra tratativas para a transferência do fundo para Alberto Leite. Em determinado momento, Vorcaro teria solicitado que uma minuta contratual fosse produzida sem a identificação dos nomes envolvidos.

Leite, por sua vez, negou ter mantido sociedade com Toffoli ou Vorcaro e classificou a operação como uma transação imobiliária regular realizada por sua empresa.

Suspeita envolvendo processo sobre precatórios

Outro ponto analisado pela PF envolve processos no STF relacionados a precatórios do setor sucroalcooleiro.

O Banco Master possuía uma carteira superior a R$ 10 bilhões relacionada ao tema e teria interesse no julgamento de uma ação envolvendo a usina Alcídia, do grupo Atvos, e a União.

Conforme o relatório, mensagens trocadas entre executivos do banco demonstraram preocupação após Toffoli adotar, em um julgamento relacionado à empresa Raízen, posição que teria sido diferente de seu entendimento anterior em caso semelhante.

Fábio Faria teria enviado mensagens alarmadas a Vorcaro. O banqueiro, por sua vez, afirmou que Toffoli havia “virado o voto” e que estava tratando do assunto.

O julgamento acabou sendo adiado após pedido de vista do ministro Kassio Nunes Marques e a ausência justificada de Toffoli. A análise foi retomada posteriormente.

No julgamento definitivo da ação da Alcídia, Toffoli votou novamente em favor da tese da empresa contra a União. O resultado terminou em 3 votos a 2.

A PF ressaltou que as mensagens relacionadas ao episódio demandariam “aprofundamento analítico”, sem apontar uma conclusão definitiva sobre eventual interferência indevida. O gabinete do ministro negou qualquer mudança irregular de posicionamento.

Encontros e relação com ex-esposa

O relatório também menciona a existência de vínculos profissionais entre Vorcaro e Roberta Rangel, ex-esposa de Toffoli. De acordo com a investigação, a advogada representou empresas que possuíam precatórios que faziam parte da carteira do Banco Master.

Os documentos analisados pela PF indicariam prestação de serviços jurídicos entre 2020 e 2025. Em uma mensagem enviada em março de 2024, Vorcaro teria se referido a Roberta como sua advogada.

Os investigadores também contabilizaram pelo menos 12 registros de encontros presenciais entre Toffoli e Vorcaro entre o fim de 2023 e o início de 2025. Entre os locais citados estão residências em Brasília e São Paulo, além de eventos realizados na Europa.

Também foram identificadas 17 chamadas telefônicas entre os aparelhos do ministro e do banqueiro durante 2024, totalizando quase sete minutos de conversas completadas.

Helicóptero e viagem

Outro episódio citado no relatório envolve o uso de transporte aéreo. Em março de 2024, Vorcaro teria disponibilizado a Fábio Faria um helicóptero vinculado à empresa Prime You para um deslocamento até a chamada “fazenda do Toffoli”, que a PF identificou como sendo o resort Tayayá.

O gabinete do ministro negou que houvesse relação de amizade íntima entre Toffoli e Vorcaro e afirmou que o magistrado não recebeu valores do banqueiro ou de familiares.

Sobre a participação de Toffoli em um evento em Londres mencionado na investigação, a assessoria declarou que o convite partiu do ministro Alexandre de Moraes.

Relatório foi encaminhado ao STF

Por envolver um ministro do Supremo, o relatório foi inicialmente enviado ao presidente da Corte, Edson Fachin. A PF informou que enfrentava limitações legais para aprofundar diligências envolvendo integrantes do tribunal sem autorização prévia.

Posteriormente, o documento foi encaminhado ao ministro André Mendonça, relator do inquérito que apura o caso Banco Master no STF.

Segundo a reportagem, Mendonça informou que os autos específicos relacionados à arguição de suspeição contra Toffoli não haviam sido formalmente remetidos a ele para adoção de providências.

O STF já havia arquivado o pedido de suspeição apresentado contra Toffoli. As informações contidas no relatório policial, contudo, permanecem sob sigilo, conforme o relato da piauí.

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