O recente pedido de Recuperação Judicial das Casas Bahia, que também aconteceu com a Marabraz, acendeu um alerta para o varejo brasileiro sobre um possível momento de crise no setor. Fatores como alto endividamento das famílias brasileiras, o crescimento das bets, o patamar elevado da taxa básica de juros e a ascensão do e-commerce são frequentemente apontados como influenciadores deste momento econômico. No entanto, mesmo com gigantes nacionais anunciando um momento de fragilidade, dados apontam que o varejo paraibano caminha na contramão deste movimento.
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De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o varejo da Paraíba cresceu 1,7% em junho e 6,3% na comparação anual. Os números revelam uma resiliência do comércio local que, de acordo com Giuseppe Severgnini, economista registrado no Corecon-PB, pode ser explicada por dois fatores: a força da empregabilidade no estado e a grande presença de pequenos e médios negócios.
“[O cenário positivo do varejo paraibano] não é um fenômeno que começou agora. Segundo os dados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) do IBGE, a Paraíba encerrou 2025 com a terceira maior taxa de crescimento no volume de vendas do varejo, de 4,8%. Em 2026, também apresenta resultados positivos”, explicou o economista em entrevista exclusiva ao Portal WSCOM.
“O aumento da geração de emprego sustenta o consumo das famílias. Segundo dados da SefazPB, a Paraíba criou mais de 31 mil empregos formais, com crescimento de 6,0% no estoque de empregos, o segundo maior crescimento relativo do país. O comércio sozinho gerou saldo de quase 4.900 postos”, pontuou.
“E a estrutura do comércio paraibano, que tem uma presença muito grande de pequenos e médios negócios, que conseguem se adaptar rapidamente às mudanças de comportamento do consumidor. O varejo é muito dependente da renda. Quando mais pessoas estão empregadas e a massa de renda cresce, existe uma base de consumo que ajuda a sustentar as vendas”, continuou o economista.
“Vilões” do varejo
Diante das transformações nas dinâmicas de consumo impulsionadas pelo e-commerce e pela ascensão das apostas online, o economista avalia que o avanço das ferramentas virtuais exige rápida adaptação das empresas regionais.
“O e-commerce representa principalmente uma mudança no canal de consumo. O dinheiro que antes era gasto em uma loja física hoje pode ser gasto em uma plataforma digital. O desafio para o comércio paraibano é justamente acompanhar essa mudança. Hoje uma pequena loja pode vender fisicamente, pelas redes sociais, marketplaces e fazer entregas. O comércio deixou de ser exclusivamente um espaço físico”, pontuou Giuseppe.
Em relação ao impacto das bets no orçamento doméstico, o especialista ressalta que o avanço da modalidade atinge a renda que iria para as compras ou para a poupança.
“Existe um efeito sobre o orçamento que poderia ser destinado ao consumo, à poupança ou ao pagamento de dívidas. Por isso, vêm surgindo medidas de regulamentação do mercado de apostas no País”, explicou.
Custo do crédito e comportamento do consumidor
O custo do dinheiro e os juros elevados são outros obstáculos que impactam diretamente o poder de compra do consumidor, além também afetar o custo operacional das empresas. Para Giuseppe, esse cenário exige uma série de estratégias para manter a viabilidade de um negócio varejista.
“Os juros elevados afetam o varejo. De um lado, o consumidor encontra um crédito mais caro e pensa mais antes de financiar uma compra. Do outro, o próprio comerciante paga mais caro pelo capital de giro, pelo financiamento de estoque e por novos investimentos. Por isso a gestão financeira passa a ser essencial para a manutenção do negócio. O comerciante precisa controlar estoque, fluxo de caixa, margem, prazo de fornecedores e custo financeiro”, destacou.
O impacto das taxas de juros reflete-se no desempenho dos bens de maior valor agregado, como veículos e material de construção, embora a Paraíba venha apresentando oscilações pontuais acima da média nacional.
“Compras de bens de maior valor são muito mais sensíveis ao crédito e aos juros. Comprar um alimento ou um medicamento atende a uma necessidade imediata. Comprar um carro ou decidir fazer uma reforma, muitas vezes, pode ser adiado por alguns meses. Os juros não necessariamente eliminam a demanda; muitas vezes mudam o momento em que o consumidor decide realizar a compra. Por isso, vejo o consumidor paraibano hoje como um consumidor mais seletivo e planejado”, analisou o economista.
Perspectivas para os próximos trimestres
A retração de gigantes nacionais abre espaço para o fortalecimento do comércio de proximidade, mas o especialista alerta que os pequenos negócios precisam investir em competitividade.
“O pequeno e médio comerciante tem vantagens como proximidade, relacionamento, conhecimento do consumidor local e capacidade de adaptação. Por outro lado, ele não pode se acomodar. Se uma grande rede perde espaço, isso não significa que o consumidor automaticamente vai procurar a loja do bairro. Ele vai procurar preço, qualidade, conveniência, atendimento e confiança. Acredito que o atual momento pode favorecer o comércio local, desde que busque constantemente desenvolver o negócio”, pontuou.
Para o segundo semestre de 2026 e o período de festas de fim de ano, a expectativa para o comércio do estado é de crescimento contínuo, ainda que de forma cautelosa perante o cenário macroeconômico.
“A Paraíba vem de um 2025 muito forte e começou 2026 mantendo uma trajetória positiva. Tivemos também momentos de perda de ritmo, efeitos do ambiente de juros altos, mas a Paraíba tem condições de manter um desempenho positivo e continuar se destacando nacionalmente de maneira moderada. O consumidor está comprando, mas com mais cuidado: pesquisa preço, compara condições e procura promoções. Quem conseguir oferecer valor, conveniência e boas condições de pagamento pode capturar esse consumo”, concluiu o economista.

