Há um momento na vida de todo movimento político em que o maior adversário deixa de estar do lado de fora. Ele passa a ocupar a cadeira ao lado. A história está repleta de exemplos em que o verdadeiro conflito não foi travado contra a oposição, mas entre aqueles que disputavam o direito de suceder um líder e definir os rumos de seu legado.
Foi assim na União Soviética após a morte de Lênin. A rivalidade entre Stálin e Trotsky extrapolou as diferenças ideológicas e tornou-se uma disputa pelo controle da máquina política e pelo monopólio da narrativa revolucionária. Ambos reivindicavam a condição de herdeiros legítimos de Lênin e do movimento bolchevique, mas apenas um conseguiu transformar essa pretensão em poder efetivo. O desfecho é conhecido: Stálin consolidou sua liderança e Trotsky foi progressivamente isolado, expulso do país e, anos depois, assassinado em exílio no México. Evidentemente, a disputa pela sucessão de Lênin ocorreu em um regime e em uma época inversamente a realidade atual, e teve consequências incomparavelmente mais graves do que qualquer disputa política em uma democracia contemporânea.
Ainda assim, a lógica da sucessão oferece um paralelo interessante com o momento vivido pelo bolsonarismo, mesmo em baixa, arrefecido, e com voluntariedade cada vez menor.
À medida que Jair Bolsonaro enfrenta restrições políticas e jurídicas, a discussão sobre o futuro do bolsonarismo deixou de ser uma hipótese distante. Ela já começou. E, como costuma acontecer em grupos fortemente personalistas, a disputa não se resume a estratégias eleitorais. Trata-se de definir quem falará em nome do líder, quem interpretará o seu figurino e quem conduzirá o que resta do bolsonarismo, em vertiginosa queda livre.
As divergências entre familiares e aliados revelam exatamente esse processo fraticida. Não é apenas uma disputa de egos, mas uma disputa de legitimidade. Cada ator procura demonstrar que representa o “verdadeiro bolsonarismo”, enquanto, ao mesmo tempo, procura reduzir o espaço dos concorrentes internos. A política, afinal, raramente tolera dois herdeiros para o mesmo trono.
Esse fenômeno não é exclusivo da direita nem da esquerda. Acontece sempre que um movimento concentra sua identidade em torno de uma única personalidade. Enquanto o líder permanece incontestável, as divergências ficam contidas. Quando sua capacidade de arbitrar conflitos diminui, surgem as disputas que antes permaneciam silenciosas.
A oposição costuma imaginar que derrotará um líder apenas pelo confronto direto. A experiência histórica sugere outra conclusão: frequentemente, os maiores abalos vêm das fissuras internas. Não porque antigos aliados deixem de compartilhar objetivos comuns, mas porque passam a competir pelo direito de representá-los.
É justamente nesse ponto que a análise histórica se torna útil. Não porque Bolsonaro seja comparável a Stálin ou Trotsky, nem porque o contexto brasileiro tenha qualquer semelhança com o regime soviético da época. Seria um erro histórico e político sustentar tal equivalência. O paralelo reside exclusivamente na dinâmica da sucessão: quando um movimento depende fortemente de um líder, a principal batalha tende a ocorrer entre aqueles que reivindicam sua herança.
Talvez essa seja a etapa mais delicada de qualquer projeto político personalista. Afinal, construir uma liderança é difícil. Sobreviver a ela costuma ser ainda mais.
Radomécio Leite possui formação nas áreas de Direito, Administração de Empresas, com MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas. Atuação nos segmentos industrial, energias e portos.

