A cidade de Itabaiana é historicamente possui suas raízes econômicas ligadas ao comércio e a agricultura familiar. No entanto, as salas de aula da rede municipal da cidade estão se transformando em um espaço para explorar na prática, algumas lições macroeconômicas.
Siga o canal do WSCOM no Whatsapp.
Essa movimentação vai em sentido contrário ao cenário de alto endividamento doméstico que o Brasil está enfrentando. Chamada de “infraestrutura invisível”, a alfabetização financeira de crianças e jovens surge como uma estratégia para fortalecer a economia local, reter talentos e otimizar a circulação da riqueza na região.
A “Jornada da Educação Financeira”, que acontece através de uma cooperação técnica entre a Prefeitura Municipal e o Sicredi, estimula uma nova geração para quebrar o ciclo histórico da dependência financeira e do superendividamento.
Mudança de Hábito
Para a secretária de Educação de Itabaiana, Joelma Fonseca, o trabalho desenvolvido na rede pública municipal desmistifica a ideia de que finanças é um tema restrito às classes mais abastadas.
“A educação financeira na nossa rede não foca apenas em poupar dinheiro, mas em organizar e planejar o que se tem. Mesmo em contextos de vulnerabilidade, é possível desenvolver consciência sobre consumo, planejamento e valorização dos recursos da família. Muitos alunos estão inclusive ajudando as famílias”, destacou a secretária em entrevista exclusiva para o Portal WSCOM.
Joelma ainda relatou o caso de alunos que utilizaram os conceitos de poupança e investimento para adquirir um carrinho de mão novo voltado a carregar fretes no comércio local, transformando o aprendizado diretamente em geração de renda familiar.
“Em Itabaiana, nós trabalhamos a educação financeira de forma prática. Os alunos participam de atividades como simulações de compras, projetos em sala e discussões sobre consumo consciente. A ideia é que eles aprendam desde cedo a diferenciar necessidade de desejo e a tomar decisões mais responsáveis sobre o uso do dinheiro. Tivemos alunos que compraram até um carrinho de mão novo porque ele carrega frete, foi emocionante o depoimento”, compartilhou.
Confrontando a realidade
O investimento em educação financeira ganha torna-se necessário quando confrontado com a realidade de crédito do país. O economista Amadeu Fonseca aponta dados que evidenciam o tamanho do desafio: em março de 2026, 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas (o maior patamar da série histórica da Peic).
O cenário local não é diferente: na Paraíba, cerca de 1,31 milhão de adultos encerraram o período recente inadimplentes, o que representa 44,33% da população adulta do estado.
Essa realidade acarreta o que os especialistas chamam de “custo da ignorância financeira”. De acordo com Amadeu Fonseca, quando a população não sabe gerir juros e crédito, uma parcela significativa da renda das famílias é drenada para o pagamento de encargos financeiros, multas por atraso e renegociações de dívidas.
“Quando a população não sabe gerir juros e crédito, uma parte maior da renda vai para encargos financeiros, atrasos e renegociações, em vez de circular no comércio e nos serviços locais. Isso enfraquece a economia, reduz o dinamismo dos pequenos negócios e pode afetar a arrecadação de forma indireta.”, explica o economista.
“A alfabetização financeira nas escolas pode ser entendida como uma espécie de infraestrutura invisível para o PIB do município, porque melhora a qualidade das decisões econômicas da população. Embora não seja uma obra física, ela impacta consumo, uso do crédito, planejamento e até a capacidade de geração de renda no longo prazo”, continuou Fonseca.

Para viabilizar o projeto, o Sicredi atuou diretamente na formação dos professores da rede municipal, garantindo que os educadores tivessem a segurança técnica necessária para aplicar o tema de forma transversal.
(Foto: Reprodução)
Expectativas para o futuro
Ao conectar a teoria da sala de aula com o orçamento doméstico, Itabaiana mira na redução do endividamento local desde a base. A expectativa é que, no longo prazo, o projeto consolide uma nova geração de consumidores capazes de blindar as finanças familiares e impulsionar o comércio do município.
“Quando o jovem aprende sobre gestão de recursos, empreendedorismo e cooperativismo, ele começa a enxergar novas possibilidades dentro do próprio município. Isso fortalece a autonomia e também o desenvolvimento de Itabaiana”, concluiu a secretária.
