O cantor e compositor Liss Albuquerque defendeu uma reflexão sobre o espaço dado aos artistas locais nas festas juninas do Nordeste. Em texto publicado nesta segunda-feira (1º), o músico afirmou que não se trata de revolta, mas de uma indignação ligada ao amor pela música nordestina.
“São décadas de estrada, festivais, canções gravadas, shows realizados e uma vida inteira dedicada à cultura popular. Mesmo assim, a cada ano vejo os artistas da terra ocuparem menos espaço nas festas que nasceram da nossa própria tradição”, declarou.
Liss também agradeceu a participação na Festa do Bode Rei, em Cabaceiras, mas afirmou que a discussão precisa ir além de uma presença pontual em eventos.
“Mas também acredito que é hora de refletirmos sobre o futuro do São João. A festa cresce, os investimentos aumentam, os palcos ficam maiores. E os artistas locais? Onde estão? Quanto espaço lhes resta?”, questionou.
A manifestação ocorre em um momento de debate recorrente sobre a presença de artistas tradicionais nas grandes festas juninas. Santanna, o Cantador, lamentou recentemente a ausência na programação do São João de Campina Grande e falou sobre a redução de espaço para forrozeiros tradicionais. Flávio José também já tratou publicamente das mudanças nas festas juninas e da necessidade de preservar o forró e a cultura nordestina no período.
No texto, Liss afirmou que a preocupação não é isolada e citou os dois artistas como exemplos de vozes que já levantaram o mesmo alerta.
“Quando vozes tão representativas levantam essa reflexão, não se trata de interesse individual, mas de um alerta sobre os rumos da nossa própria cultura”, disse.
Confira o texto de Liss Albuquerue na íntegra:
Não é revolta. É apenas uma indignação que carrego junto com o amor pela música nordestina.
São décadas de estrada, festivais, canções gravadas, shows realizados e uma vida inteira dedicada à cultura popular. Mesmo assim, a cada ano vejo os artistas da terra ocuparem menos espaço nas festas que nasceram da nossa própria tradição.
Fico feliz por estar em Cabaceiras na festa do Bode Rei, cidade que mantém viva a valorização da cultura regional e me recebe em sua programação. Toda oportunidade de cantar para o povo é motivo de gratidão.
Mas também acredito que é hora de refletirmos sobre o futuro do São João. A festa cresce, os investimentos aumentam, os palcos ficam maiores. E os artistas locais? Onde estão? Quanto espaço lhes resta?
Essa preocupação não é apenas minha. Grandes nomes da nossa música, como Santanna e Flávio José, também já manifestaram publicamente sua inquietação com o espaço cada vez menor destinado aos artistas que construíram e mantêm viva a identidade cultural nordestina. Quando vozes tão representativas levantam essa reflexão, não se trata de interesse individual, mas de um alerta sobre os rumos da nossa própria cultura.
O São João não é feito apenas de grandes estruturas e atrações nacionais. Ele é construído pela história, pela identidade e pela voz daqueles que cantam essa cultura durante o ano inteiro. Sem os artistas da terra, a festa corre o risco de perder parte de sua essência.
Seguimos trabalhando, compondo, acreditando e defendendo a nossa música. Porque a cultura de um povo só permanece viva quando seus próprios artistas têm vez e voz. E valorizar quem preserva essa tradição não é favor, é respeito à história e à alma do Nordeste.
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