Há um padrão que se repete sempre que um crime desperta especulações sobre a sexualidade da vítima. Antes mesmo de sabermos quem matou, como matou ou por que matou, começamos a investigar a vida de quem morreu. Com quem se relacionava, onde estava, o que fazia, como conheceu determinada pessoa. A condenação costuma ser dupla: primeiro vem a violência, depois vem o julgamento público da intimidade.
Nos últimos dias, um homem foi encontrado morto em um hotel no bairro de Manaíra, em João Pessoa. Rapidamente, a repercussão do caso passou a incluir especulações sobre a vida íntima da vítima, sua sexualidade e a possibilidade de que o encontro tivesse começado em um aplicativo de relacionamento.
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Não tenho qualquer interesse em comentar uma investigação que ainda está em curso. Seria irresponsável transformar especulações em notícia ou antecipar conclusões que cabem às autoridades. O que me interessa é justamente outra coisa: por que, diante de episódios como esse, parecemos mais preocupados em investigar a intimidade da vítima do que em discutir as condições que tornam essas violências possíveis?
Escrevo também a partir de um lugar muito específico. Sou urbanista, estudo cidades há mais de uma década e sou um homem gay. Talvez por isso eu reconheça nesse episódio um padrão que vai muito além desse caso, ele fala sobre a forma como nossa sociedade ainda enxerga a sexualidade da população LGBTQIA+, sobre como construímos nossos espaços de convivência e, sobretudo, sobre quem continua sendo responsabilizado quando a violência acontece.
Aplicativos de relacionamento fazem parte do cotidiano de milhões de pessoas e, para muitos de nós, ocupam um lugar especialmente importante. É verdade que boa parte das formas de sociabilidade da população LGBTQIA+ nasceu da necessidade de driblar uma cidade historicamente hostil. Durante muito tempo, quando as ruas, as praças e os espaços públicos nos expulsavam, foi preciso inventar outras formas de encontro: bares, saunas, praias, festas, cruising, banheiros públicos e tantos outros lugares onde fosse possível existir, desejar e construir vínculos.
Mas reduzir essa história apenas à discriminação também seria um erro. Ao longo do tempo, essas práticas deixaram de ser apenas estratégias de sobrevivência, elas produziram cultura, pertencimento, códigos próprios e maneiras particulares de viver a sexualidade. Os aplicativos fazem parte dessa trajetória, não a inauguram. Eles ampliaram possibilidades, reorganizaram práticas e transformaram profundamente a forma como nos encontramos.
É justamente por isso que essas plataformas deixaram de ser apenas empresas de tecnologia. Hoje elas organizam milhões de encontros reais entre pessoas reais, interferem na forma como produzimos vínculos, afeto, desejo e convivência. Quando uma empresa passa a organizar milhões de encontros entre desconhecidos, ela deixa de ser apenas uma empresa de tecnologia, passa a administrar uma infraestrutura social. E infraestruturas sociais produzem deveres de cuidado.
Sempre ouvimos as mesmas recomendações: “avise um amigo”, “compartilhe sua localização”, “faça uma chamada de vídeo”, “tenha cuidado”. Todas elas são importantes e, muitas vezes, salvam vidas. Mas será que elas bastam? Será que toda a responsabilidade deve continuar recaindo sobre quem usa o aplicativo, enquanto pouco discutimos quais mecanismos essas empresas adotam para identificar perfis falsos, impedir a reincidência de golpistas, responder rapidamente a denúncias graves ou cooperar com as autoridades quando crimes acontecem?
Esse debate já começou em outros países e também entre pesquisadores brasileiros. As plataformas digitais já não podem ser tratadas como simples intermediárias neutras. Elas desenham formas de interação, aproximam pessoas, organizam visibilidades por meio de algoritmos e estruturam parte importante da vida social contemporânea. Se exercem tamanho poder sobre a forma como nos encontramos, também precisam assumir responsabilidades proporcionais à influência que exercem.
Como urbanista e ativista urbano, aprendi que a cidade nunca é neutra, ela distribui oportunidades, produz encontros, mas também estabelece fronteiras invisíveis. Nós, pessoas LGBTQIA+, aprendemos isso muito cedo. Sabemos quais ruas evitamos atravessar de mãos dadas, quais ambientes exigem que controlemos a voz, os gestos ou a forma de demonstrar afeto. Chamamos isso de homofobia, e é exatamente isso. Mas a homofobia também produz território, porque define onde nos sentimos autorizados a existir e onde aprendemos, silenciosamente, que talvez seja melhor não permanecer.
Os aplicativos não substituíram a cidade. O encontro continua acontecendo na praça, no bar, na praia, na casa, no hotel ou no motel. Mas eles reorganizaram profundamente a forma como esses encontros são produzidos e, portanto, também reorganizaram práticas urbanas, deslocamentos e relações sociais. Ignorar isso é fechar os olhos para uma das transformações mais importantes da vida contemporânea.
Ao mesmo tempo, há outro problema que me preocupa tanto quanto a ausência de debate sobre as plataformas: nossa obsessão em investigar a vida privada das vítimas antes mesmo de exigir a responsabilização dos agressores.
A sexualidade de alguém nunca explica um crime. O lugar onde uma pessoa conheceu outra também não explica. Transformar a intimidade em espetáculo apenas reforça uma cultura que insiste em procurar justificativas para a violência antes de procurar seus autores. E isso vale para qualquer pessoa, independentemente de sua orientação sexual, identidade de gênero, profissão ou forma de viver sua afetividade.
Como homem gay, recuso a ideia de que a resposta para esse problema seja o medo. Não quero que nós saiamos menos, desejemos menos ou nos encontremos menos, quero uma sociedade em que possamos viver nossa afetividade com liberdade, dignidade e segurança, exatamente como qualquer outra pessoa.
Foi também por isso que decidi disputar um mandato. Porque discutir cidades nunca foi apenas discutir concreto. Sempre foi discutir quem pode circular, amar, construir vínculos e ocupar os espaços com liberdade. E, se a tecnologia passou a reorganizar parte importante da forma como vivemos esses encontros, ela também precisa entrar no centro do debate sobre direitos, dever de cuidado e cidadania.
