Saúde pública: especialistas apontam diferenças entre propostas de Lula e Flávio Bolsonaro

Especialistas analisam diferenças entre os planos dos candidatos para o SUS, o financiamento da saúde, a telemedicina e a ampliação do atendimento especializado.

O fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), a ampliação do atendimento especializado e o financiamento dos serviços públicos estão entre os principais pontos de divergência entre as propostas de saúde do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL), que disputam a Presidência da República em 2026. As diferenças entre os projetos envolvem, sobretudo, o papel do Estado na oferta de serviços e a participação da iniciativa privada no atendimento à população.

De acordo com o médico sanitarista Luciano Bezerra Gomes, professor do Departamento de Promoção da Saúde da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), embora existam pontos em comum entre os programas, as estratégias para ampliar o atendimento são distintas.

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“Alguns pontos em comum são a ênfase no fortalecimento de tecnologias para melhoria da saúde, como telesaúde, o uso de inteligência artificial em determinadas áreas, como gestão de filas e regulação, mas as semelhanças param praticamente por aí, porque as diferenças são muito evidentes”, afirmou.

Lula propõe fortalecer o SUS e ampliar programas

Na avaliação de Luciano Bezerra, o programa de Lula prioriza o fortalecimento do SUS e a continuidade de políticas públicas já existentes, além da ampliação do atendimento especializado.

“Por um lado, o candidato Luís Inácio Lula da Silva fala bastante no fortalecimento do Sistema Único como uma política social diretamente executada pelo poder público”, explicou.

Entre as iniciativas destacadas pelo professor estão o Farmácia Popular, o Mais Médicos e o Agora Tem Especialistas, programa voltado à ampliação do acesso a consultas, exames e procedimentos especializados. Ele também menciona a expansão da atenção básica e o aumento da cobertura vacinal. “Uma ênfase importante é na redução da população que está com baixa cobertura vacinal, ou seja, expansão da cobertura vacinal na população brasileira”, acrescentou.

O agente de saúde João Ricardo do Nascimento Bezerra também aponta a valorização do SUS como um dos principais aspectos da proposta do atual presidente. Para ele, programas que garantem acesso a medicamentos e atendimento básico têm papel importante na assistência à população.

“As principais propostas de Lula para a saúde é a valorização do SUS. A questão da Farmácia Popular que funciona, a questão dos PSFs que funcionam”, afirmou João Ricardo, em referência às unidades e equipes da Estratégia de Saúde da Família.

O agente de saúde ressalta, contudo, que a execução das políticas federais também depende da atuação dos municípios. “A saúde hoje do governo Lula, ela é uma saúde que não chega a ser 100% devido a alguns municípios não repassar realmente o que vem do governo federal”, declarou.

Flávio Bolsonaro prevê maior participação do setor privado

Na análise de Luciano Bezerra, o programa de Flávio Bolsonaro atribui maior importância à contratação de serviços privados para ampliar a oferta de atendimento à população.  “Por outro lado, o programa de Flávio Bolsonaro tem uma ênfase maior na atenção privada, na contratação de serviços privados, na relação com instituições privadas para ampliar o acesso”, afirmou o professor.

Ele acrescenta que a diferença também aparece na organização da atenção básica e especializada. Enquanto a proposta de Lula enfatiza iniciativas vinculadas à rede pública, Flávio aposta na expansão da telemedicina e na contratação de prestadores privados para ampliar os atendimentos.

Eduardo Simon, diretor de Regulação, Auditoria, Controle e Avaliação da Secretaria Municipal de Saúde de João Pessoa, também identifica diferenças na concepção dos dois projetos. Segundo ele, a discussão envolve o nível de responsabilidade do Estado na garantia da assistência médica.

“O confronto entre o plano de governo do candidato, atual presidente Lula, e do candidato atual senador Flávio Bolsonaro é o confronto de dois modelos diferentes do que se quer para a saúde pública. Ou você vai ter um modelo em que o Estado vai garantir o tratamento, que é o modelo do SUS, ou você tem a outra proposta, que é reduzir imposto, reduzir gasto, e aí cada um se vira como puder”, declarou.

Financiamento da saúde é ponto de preocupação

O volume de recursos destinados ao SUS é outro aspecto destacado pelos especialistas. Luciano Bezerra afirma que o sistema brasileiro precisa de mais financiamento para atender à população, considerando a dimensão do país e a variedade de procedimentos oferecidos pela rede pública.

“Então, a gente precisa de mais recursos e o candidato Flávio Bolsonaro sinaliza com cortes de investimento na área da saúde com repasse ainda maior de recurso para o setor privado”, afirmou.

O professor também demonstra preocupação com possíveis mudanças no orçamento e ressalta que o financiamento público brasileiro é limitado quando comparado ao de outros países que mantêm sistemas universais de saúde.

“O Brasil investe muito pouco relativamente. A gente é um país que tem um Sistema Único de Saúde, que é o maior sistema público do mundo. Nenhum país com mais de 100 milhões de habitantes tem um sistema público universal, gratuito, que permite uma assistência integral, desde a assistência básica até a alta complexidade, com tão baixo financiamento como é no Sistema Único de Saúde”, ressaltou.

Eduardo Simon também destaca a importância dos recursos federais para a manutenção dos serviços estaduais e municipais. “Se o cidadão quer menos impostos e menos gasto governamental, ela vai ter que arcar com a queda do orçamento em saúde”, afirmou.

O diretor defende que o eleitor considere os efeitos das propostas econômicas sobre o funcionamento da rede pública, especialmente para quem depende exclusivamente do SUS.

Histórico dos governos também entra na comparação

Além das medidas anunciadas para 2026, os entrevistados defendem que a população considere o histórico das administrações anteriores na área da saúde.

Luciano Bezerra comenta sobre a gestão de Jair Bolsonaro, pai de Flávio Bolsonaro, especialmente durante a pandemia de Covid-19. O professor cita problemas na condução da crise sanitária e aponta preocupações com o financiamento e as políticas de imunização.

“Da parte do candidato Flávio Bolsonaro, a gestão da saúde no governo Jair Bolsonaro foi um dos principais problemas que a gente teve nas políticas públicas”, declarou.

O professor também menciona programas desenvolvidos ou ampliados durante governos do PT, como Farmácia Popular, Brasil Sorridente, Mais Médicos e Estratégia de Saúde da Família.

João Ricardo também discorre sobre a gestão anterior e afirma que houve enfraquecimento do sistema público. “Bolsonaro passou quatro anos e sucateou o SUS. Não gerou bem a questão da pandemia, faltou insumos nas unidades de saúde”, disse.

O agente de saúde também cita dificuldades no acesso a medicamentos utilizados por pessoas com asma, hipertensão e diabetes, além de fraldas distribuídas por programas de assistência.

O que observar antes de votar

Para os especialistas, a comparação entre os programas deve considerar como cada candidatura pretende financiar a saúde, ampliar o número de profissionais, reduzir o tempo de espera por consultas e procedimentos e garantir o fornecimento de medicamentos.

Eduardo Simon ressalta que o eleitor precisa avaliar os efeitos das propostas econômicas sobre a manutenção dos serviços públicos. “O que ele (Flávio Bolsonaro) está querendo dizer pro cidadão […] é: ‘Eu vou cobrar menos imposto, mas também eu não vou dar o serviço público que você vai precisar’”, afirmou, ao discutir os possíveis impactos da redução dos gastos governamentais.

Luciano Bezerra também recomenda que os eleitores analisem a experiência administrativa dos grupos políticos e as medidas anunciadas durante a campanha, além do conteúdo formal dos planos de governo.

Confira na íntegra o plano de governo dos dois candidatos

Flávio bolsonaro: https://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2026-content/propostas-de-governo-dos-candidatos-ao-cargo-de-presidente-da-republica-eleicoes-2026/flavio-bolsonaro

Luiz Inácio Lula da Silva: https://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2026-content/propostas-de-governo-dos-candidatos-ao-cargo-de-presidente-da-republica-eleicoes-2026/lula-propostas-de-governo

 

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