Administrar é assumir responsabilidade pelas consequências das nossas escolhas

Por Filipe Andson: Mentor e Estrategista em Gestão

Setembro é um mês especial para quem escolheu a Administração como profissão. No dia 9, celebramos o Dia do Profissional de Administração, data que marca também os 61 anos da regulamentação da profissão no Brasil, estabelecida pela Lei nº 4.769, de 1965.

Mas, mais do que celebrar uma profissão, acredito que esta data nos convida a refletir sobre o papel de quem administra em um país que apresenta desafios cada vez maiores para empresas, organizações e pessoas.

Administrar uma empresa no Brasil nunca foi tarefa simples. E o cenário atual exige ainda mais preparo.

O gestor precisa lidar com um ambiente de juros elevados, crédito mais caro, carga tributária significativa, competição internacional, transformação tecnológica acelerada, mudanças no comportamento do consumidor e, em muitos setores, dificuldade para encontrar e desenvolver profissionais qualificados.

Para dimensionar parte desse cenário, a carga tributária bruta do Governo Geral alcançou 32,40% do PIB em 2025, segundo o Tesouro Nacional. Já a taxa Selic permanece em patamar elevado, tendo chegado a 15% ao ano em 2025 e permanecendo como um importante componente das condições financeiras enfrentadas pelas empresas.

Nesse ambiente, administrar deixou há muito tempo de significar apenas controlar receitas e despesas.
Administrar é tomar decisões diante da incerteza.

É saber onde investir quando os recursos são limitados. É preservar o caixa sem deixar de pensar no futuro. É buscar produtividade sem perder de vista as pessoas. É incorporar tecnologia sem esquecer que negócios são feitos por gente e para gente. É compreender o cliente, antecipar movimentos do mercado, desenvolver talentos, controlar riscos e construir estratégias capazes de atravessar momentos difíceis.

Mas existe uma dimensão da Administração que considero ainda mais importante: a dimensão humana e ética da liderança.

Um administrador não influencia apenas os resultados de uma empresa. Ele influencia pessoas.

Suas decisões podem estimular uma equipe a crescer ou fazer com que ela perca a confiança. Sua postura pode estabelecer uma cultura de responsabilidade ou abrir espaço para comportamentos inadequados. Sua maneira de lidar com erros pode formar profissionais mais maduros ou criar ambientes dominados pelo medo.

Por isso, exercer a Administração é também assumir uma responsabilidade.

O próprio juramento do Administrador destaca a dedicação aos postulados da profissão e o respeito aos seus valores técnicos, legais e morais.

E talvez nunca tenha sido tão importante lembrar disso.

Vivemos um período em que notícias sobre corrupção, fraudes, desvios de recursos, conflitos de interesse e práticas empresariais inadequadas frequentemente ocupam espaço no debate público. São situações que podem envolver diferentes instituições, setores e pessoas, e que não devem ser utilizadas para condenar toda uma categoria ou organização.

Mas elas trazem uma reflexão necessária.

Quanto maior o poder de decisão, maior deve ser o compromisso com a integridade.

O administrador que ocupa uma posição de liderança precisa compreender que resultado não pode ser analisado apenas pela última linha do balanço. Há resultados que aparecem nos números e outros que aparecem na confiança, na reputação, na sustentabilidade do negócio, no desenvolvimento das pessoas e na contribuição para a sociedade.

Conhecimento é fundamental. Competência técnica é indispensável. Estratégia é necessária.
Mas não basta.

O próprio Sistema CFA/CRAs já utiliza o conceito de CHAVE, reunindo Conhecimento, Habilidades, Atitudes, Valores e Ética. A mensagem é poderosa: a formação de um profissional não pode se limitar ao que ele sabe fazer. É preciso considerar também como ele age, quais valores carrega e quais decisões está disposto a tomar quando ninguém está olhando.

É nesse ponto que a profissão encontra uma responsabilidade que ultrapassa os limites das organizações.
Empresas fortes contribuem para uma economia mais forte. Organizações bem administradas geram empregos, desenvolvem pessoas, movimentam cadeias produtivas, inovam e criam produtos e serviços que melhoram a vida da sociedade.

Da mesma forma, uma gestão pública orientada por planejamento, eficiência, transparência e responsabilidade também pode transformar recursos em melhores serviços para a população.

Não se trata de esquerda ou direita. Não se trata de ideologia partidária.

Trata-se de boa Administração.

De fazer o recurso chegar onde precisa. De planejar antes de executar. De medir resultados. De prestar contas. De respeitar leis e pessoas. De combater desperdícios. De tomar decisões baseadas em dados, conhecimento e responsabilidade.

O Brasil precisa de administradores que compreendam que liderar não é apenas ocupar uma posição hierárquica.

É dar exemplo.

Em tempos de inteligência artificial, transformação digital, mudanças econômicas e profundas transformações no mercado de trabalho, talvez uma das competências mais importantes do administrador continue sendo uma das mais antigas: a capacidade de fazer escolhas responsáveis.

Porque tecnologia pode acelerar processos. Dados podem melhorar decisões. Inteligência artificial pode ampliar capacidades.

Mas nenhuma tecnologia substitui caráter.

E nenhuma estratégia é sustentável quando construída sobre a falta de ética.

Neste mês em que celebramos a Administração, fica, portanto, uma provocação aos profissionais da área: que tipo de marca estamos deixando nas organizações que lideramos?

Que profissionais estamos formando?

Que cultura estamos construindo?

Que exemplo estamos dando?

E, principalmente, que contribuição queremos oferecer ao país?

Administrar é organizar recursos. É planejar. É controlar. É decidir. É liderar.

Mas, acima de tudo, administrar é assumir responsabilidade pelas consequências das nossas escolhas.

Que cada administrador compreenda a força que existe em suas decisões e use essa força para construir organizações mais eficientes, pessoas mais desenvolvidas e uma sociedade mais ética, justa e próspera.

Porque um país também se transforma nas salas de reunião, nas empresas, nos pequenos negócios, nas instituições e em cada decisão tomada por alguém que escolheu administrar.

Feliz Dia do Administrador.

Filipe Andson

Gestor e mentor com vasta experiência na transformação dos negócios por meio da Gestão e Liderança. Há 16 anos, faz parte do board diretivo de uma grande empresa varejista brasileira, atualmente como CDO do grupo. Diretor de Tecnologia da ABRH e ex-VP de Planejamento e Governança do PMI. Criador do Framework Gestão Alto Impacto e Escritor de livros sobre gestão e uso de Inteligência Artificial para gestores.

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