O filme que virou pesadelo eleitoral, por Rui Leitão

Dark Horse

O filme que pretendia ser a mais importante peça de campanha da extrema direita na disputa pela Presidência da República acabou se transformando em um dos seus maiores pesadelos eleitorais.

A ideia, a princípio, parecia genial para os estrategistas da candidatura: produzir uma obra cinematográfica sobre a trajetória do pai do candidato, hoje preso e cumprindo pena de 27 anos e 3 meses por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado. O filme seria utilizado para construir uma narrativa de vitimização, transformar o condenado em herói político e mobilizar seus seguidores.

Mas cometeram um erro que pode ter sido fatal: buscar o financiamento justamente junto a um banqueiro que acabou envolvido naquele que se tornou um dos maiores escândalos financeiros do país.

A estratégia parecia simples: o chamado “investidor” permaneceria distante dos holofotes e sua participação na produção não chegaria ao conhecimento do grande público. Só que o jornalismo investigativo desmontou a operação.

Um áudio veio à tona. Nele, o filho 01, indicado pelo próprio pai para disputar o mais importante cargo executivo da República, cobrava a continuidade do pagamento das parcelas de um compromisso que chegaria a R$ 130 milhões. Segundo as informações divulgadas, R$ 61 milhões já teriam sido liberados.

Quando questionado por um jornalista sobre a relação de negócios com o banqueiro e o financiamento do filme, o candidato reagiu com ironia. Tentou desqualificar a pergunta, chamando o jornalista de “militante”. Era a velha estratégia: quando a pergunta incomoda, ataca-se quem pergunta.

Poucas horas depois, entretanto, veio a mudança de discurso. O que inicialmente parecia uma acusação a ser ridicularizada acabou sendo reconhecido pelo próprio candidato. O primeiro impacto sobre a campanha foi devastador. Como era previsível, parte dos seguidores da extrema direita começou, pouco a pouco, a tratar o episódio como algo normal. E a campanha seguiu seu caminho.

Mais uma vez, quando questionados sobre as denúncias envolvendo o candidato, seus apoiadores não apresentam explicações convincentes. Preferem recorrer ao velho e desgastado refrão: “E o Lula? E o PT?”

É a fuga pela tangente transformada em método político. Em vez de responder às perguntas sobre dinheiro, relações, interesses e responsabilidades, muda-se o assunto. Em vez de esclarecer os fatos, aponta-se para o adversário. Como se uma eventual irregularidade deixasse de ser irregularidade porque alguém consegue pronunciar duas palavras mágicas: “Lula” e “PT”.

Durante algum tempo, a estratégia pareceu funcionar. Contando com uma suposta blindagem política e institucional nos desdobramentos relacionados ao Banco Master e ao chamado “Dark Horse”, os integrantes do grupo seguiram confiantes na busca de um resultado eleitoral favorável. Mas surgiram novos fatos.

Atos atribuídos ao ministro responsável pela relatoria de processos de enorme repercussão política passaram a provocar questionamentos sobre a condução dos casos. A partir daí, aquilo que parecia uma simples disputa jurídica começou a assumir contornos de uma crise institucional.

E aqui está o ponto mais grave: quando instituições responsáveis pela investigação, julgamento e punição dos envolvidos na tentativa de golpe são colocadas sob suspeita, não estamos mais diante de uma simples disputa eleitoral. Estamos diante de uma disputa pelo próprio futuro do Estado Democrático de Direito.

A estratégia, segundo essa interpretação, seria produzir o descrédito das instituições republicanas que impediram o golpe, especialmente do Supremo Tribunal Federal, criando um ambiente de desconfiança, caos institucional e descrença na democracia. Afinal, para aqueles que não conseguiram derrubar a democracia pelas armas ou pela força, desmoralizar suas instituições pode ser uma segunda tentativa de fazê-lo por outros caminhos.

Mais uma vez, porém, os fatos começam a aparecer. Agora, diante da pressão crescente pela transparência, surgem resistências à liberação de arquivos que permanecem sob sigilo. E justamente porque estamos em plena disputa eleitoral, qualquer tentativa de impedir o conhecimento público de informações relevantes precisa ser examinada com extremo rigor.

O Brasil parece finalmente despertar para algo que, para muitos, estava diante dos olhos há bastante tempo. Talvez as peças estejam começando a se encaixar. O filme que deveria servir para construir uma narrativa eleitoral pode acabar revelando os bastidores de uma engrenagem muito mais ampla.

Aquilo que pretendia ser propaganda pode transformar-se em prova política. O que deveria produzir vitimização pode produzir desconfiança. E o que pretendia fortalecer uma candidatura pode acabar expondo suas contradições.

Esperemos os próximos capítulos dessa novela.
Mas há uma razão para algum alívio: as armadilhas estão sendo identificadas e desmontadas antes que seja tarde demais. A democracia brasileira já sobreviveu a uma tentativa de golpe. E poderá sobreviver novamente a todos aqueles que, por diferentes caminhos, insistirem em ameaçá-la.

Agora cabe aos brasileiros a palavra final. No dia 4 de outubro, o instrumento será o voto. E patriotismo, neste momento, não é desfraldar a bandeira de outro país, bater continência para líder estrangeiro ou defender interesses particulares. Patriotismo é defender o Brasil. É defender a soberania nacional. É defender a Constituição. É defender a democracia.

E é usar o voto para impedir que aqueles que tentaram destruir o Estado Democrático de Direito tenham uma segunda oportunidade de fazê-lo.

O Brasil é dos brasileiros. E a democracia será salva, mais uma vez, pelo voto.

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