A politização da fé e a política cada vez mais presente nos púlpitos, por Rui Leitão

Foto: Isaac Nóbrega/PR

O púlpito das igrejas não pode ser transformado em palanque eleitoral. Quando isso acontece, não estamos diante apenas de uma inadequação política, mas de uma preocupante deformação do próprio sentido da religião. Quem entra em um templo procura um espaço de fé, reflexão, oração e comunhão, não um comício disfarçado de celebração religiosa.

O problema se torna ainda mais grave quando políticos e líderes religiosos tentam transformar a fé em instrumento de disputa eleitoral. A religião possui uma enorme força de mobilização social e emocional. Por isso mesmo, sua utilização como ferramenta de propaganda política exige responsabilidade. Não se pode invocar o nome de Deus para legitimar candidaturas, demonizar adversários ou constranger fiéis a seguir determinada orientação eleitoral.

Político não deve escolher interlocutores apenas entre aqueles que pensam como ele. Deve ouvir, conversar, compreender as preocupações das comunidades e apresentar suas propostas. Isso é política no melhor sentido da palavra. Outra coisa, porém, é transformar uma igreja em extensão de um comitê eleitoral.

Há uma diferença fundamental entre dialogar com os religiosos e instrumentalizar a religião. A primeira atitude é democrática; a segunda é oportunista. O político pode visitar uma igreja, conversar com seus membros e ouvir suas reivindicações, mas o espaço destinado ao culto não deveria ser convertido em cenário de campanha.

Também é preciso cobrar responsabilidade dos líderes religiosos. Eles, como cidadãos, têm todo o direito de possuir convicções políticas, defender ideias e votar em quem quiserem. O que merece questionamento é quando a autoridade espiritual é utilizada para exercer pressão política sobre os fiéis. O púlpito confere ao líder religioso uma posição de influência que não pode ser confundida com mandato eleitoral.

A democracia precisa proteger simultaneamente a liberdade religiosa e a liberdade política. Quando uma tenta ocupar o espaço da outra, ambas saem prejudicadas. A igreja perde sua autonomia espiritual e a política perde sua legitimidade, porque passa a recorrer à fé como instrumento de convencimento eleitoral.

O mais perigoso nessa mistura é justamente a tentativa de apresentar uma preferência política como se fosse uma escolha divina. Quando um candidato passa a ser apresentado como representante de Deus e seu adversário como inimigo da fé, desaparece o debate democrático. Não se discutem mais propostas, projetos e ideias. Produzem-se dogmas políticos.

É assim que a religião pode ser transformada em uma poderosa máquina eleitoral Não existe democracia saudável quando o eleitor é levado a acreditar que votar em determinado candidato é uma obrigação de sua fé. A escolha política deve ser livre, consciente e soberana. Deus não precisa de cabo eleitoral, e a religião não precisa de palanque.

Igreja é lugar de fé. Política é lugar de disputa de ideias e projetos. Os dois mundos podem dialogar, e devem dialogar, porque ambos fazem parte da sociedade. O que não se pode aceitar é que um seja utilizado para capturar o outro.

O púlpito deve continuar sendo espaço para a palavra de Deus. O palanque eleitoral deve ficar do lado de fora da igreja.

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