O bolsonarismo e a estratégia de vitimização, por Rui Leitão

Também são perceptíveis as semelhanças entre essa estratégia e o trumpismo, nos Estados Unidos.

Flávio Bolsonaro e Donald Trump

​O centro do debate público vem sendo ocupado, quase diariamente, por temas potencialmente danosos à imagem do clã Bolsonaro. Em razão disso, a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República tem recorrido à retórica da vitimização e da perseguição como estratégia política.

​Um dos episódios mais recentes decorre da decisão do ministro Alexandre de Moraes de proibir que o candidato do PL continue visitando seu pai, que cumpre prisão domiciliar, em razão da burla a uma das medidas cautelares impostas ao ex-presidente: a proibição de utilizar plataformas digitais, direta ou indiretamente. Em resposta, apoiadores bolsonaristas passaram a intensificar as críticas ao Supremo Tribunal Federal, classificando-o como um “tribunal de exceção”, com o objetivo de questionar a legitimidade das decisões judiciais e sustentar a narrativa de que haveria uma perseguição política sem precedentes.

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​Ainda que a decisão do ministro possa ser considerada juridicamente fundamentada, há quem avalie que ela acabou oferecendo à campanha de Flávio Bolsonaro um discurso de vitimização capaz de mobilizar sua militância, reforçando entre seus seguidores a percepção de um isolamento injusto. Nas redes sociais, grupos mais radicalizados rapidamente difundiram a narrativa de que a Justiça brasileira estaria, mais uma vez, impondo medidas persecutórias contra o ex-presidente e seus aliados, discurso que tem ocupado papel central na estratégia comunicacional da extrema-direita.

​Essa estratégia consiste em transformar derrotas políticas, condenações judiciais e investigações em narrativas de perseguição, com o objetivo de manter a base de apoio mobilizada e estimular o engajamento permanente nas redes sociais, convertendo esse movimento em ativo eleitoral. Nesse contexto, a preocupação deixa de ser o respeito aos limites do debate democrático e passa a ser a ampliação do espaço para discursos que questionem a credibilidade das instituições, enfraquecendo os mecanismos institucionais que sustentam a legitimidade democrática.

​Na ciência política, há um conceito conhecido como Janela de Overton, segundo o qual ideias anteriormente consideradas radicais ou inaceitáveis podem, por meio da repetição e da normalização no debate público, tornar-se progressivamente aceitáveis. Sob essa perspectiva, a recorrência da narrativa de perseguição pode ser compreendida como uma estratégia destinada a enfrentar as sucessivas crises que surgem durante a campanha do candidato do PL. Trata-se de manifestações que, muitas vezes, não resistem a uma análise minimamente criteriosa, mas que, associadas ao discurso de vitimização, procuram influenciar a opinião pública de forma coordenada.

​A tática busca consolidar o eleitorado mais fiel por meio da construção de um sentimento de injustiça que estimule a união contra supostos “inimigos”. Em vez de reconhecer decisões judiciais como parte do funcionamento regular do Estado de Direito, o bolsonarismo tende a classificá-las como perseguição aos conservadores. Também são perceptíveis as semelhanças entre essa estratégia e o trumpismo, nos Estados Unidos, marcado pela produção frequente de declarações polêmicas que pautam o debate público e funcionam como cortinas de fumaça para reduzir os efeitos de crises políticas e judiciais.

​São, portanto, recorrentes as alegações de perseguição judicial, censura, parcialidade da imprensa e atuação politicamente motivada de órgãos do Estado. Seus apoiadores tendem a validar essas alegações, enquanto críticos argumentam que elas servem para deslegitimar instituições e manter a mobilização política, mesmo diante de investigações ou decisões judiciais.

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