Como a disputa de narrativas antecede a disputa pelos votos na política, por Joyce Oliveira
Faltam poucos dias para o início da campanha eleitoral. E, enquanto muita gente está preocupada em descobrir quem vai ganhar a eleição, eu confesso que estou mais interessada em outra pergunta: qual história cada candidato está tentando contar?
Campanhas não são feitas apenas de propostas. Elas também são feitas de símbolos, personagens e narrativas. É por esse olhar que pretendo analisar os candidatos.
Começando por Cícero Lucena, a impressão que tenho é que a história escolhida para essa eleição é bastante clara: a experiência. E faz todo sentido.

Joyce Oliveira é profissional de marketing e trabalha em campanhas de políticos em todo o Brasil.
Cícero é o candidato com a trajetória política mais longa entre os principais nomes da disputa e tentará um feito raro na política paraibana: voltar ao Governo do Estado décadas depois de já ter ocupado o cargo, além de ter sido senador e, por duas vezes, prefeito de João Pessoa. Poucos políticos conseguem construir uma carreira tão extensa e, depois de tanto tempo, voltar a disputar o principal cargo do Estado.
Essa experiência deve ser um dos principais pilares de sua narrativa. Em um de seus conteúdos mais recentes nas redes sociais, Cícero publicou um trecho de uma entrevista em que afirma: “Eu quero acreditar que ele não mentiu. Eu acredito que ele não sabe”, ao se referir ao governador Lucas Ribeiro. A fala parece reforçar uma mensagem que deve acompanhar sua campanha: a de quem conhece os caminhos da gestão pública e sabe como fazer.
Traduzindo para o “politiquês”: a mensagem parece ser algo como “eu sei como resolver e ele não.”
Mas toda narrativa encontra um contraponto.
Se Cícero representa a experiência, é natural que seus adversários tentem ocupar o lugar da renovação. É aquele velho roteiro que a política adora: experiência versus nova geração.
E é aí que essa história começa a ficar interessante.
Não sei se você reparou, mas basta dar uma olhada nas redes sociais do “Caboquinho”. Nos últimos meses, ficaram mais frequentes os vídeos caminhando, correndo, praticando atividades físicas e cercado de jovens. Coincidência ou estratégia? Eu deixo essa resposta com você.
Além disso, a escolha de um vice jovem reforça outra mensagem: a experiência continua sendo o principal ativo da chapa, mas vem acompanhada de disposição e renovação.
É cedo para dizer se essa narrativa vai convencer o eleitor. Mas vale a pena observar uma coisa nas próximas semanas: quantas vezes Cícero vai falar sobre experiência e quantas vezes vai tentar mostrar, sem dizer uma palavra, que ainda tem fôlego para mais uma corrida.
Cícero é o candidato mais conhecido do eleitorado. E isso é uma vantagem importante: ele não precisa gastar tempo explicando quem é. Por outro lado, quem é muito conhecido também carrega uma opinião já formada. A mesma trajetória que gera reconhecimento também acumula críticas, desgastes e rejeições.
Se Cícero vende experiência, Lucas precisa construir uma narrativa em que a renovação inspire confiança, e não incerteza.
Esse talvez seja o roteiro mais complexo desta eleição.
Lucas chega à disputa com um ativo importante: o legado do governo João Azevêdo, do qual participou como vice e que hoje representa como governador. Isso lhe permite apresentar os resultados de uma gestão já conhecida pelo eleitor. Mas, ao mesmo tempo, precisa mostrar qual é a sua própria assinatura.
E me parece que é exatamente isso que Lucas tenta fazer.
Nas redes sociais, Lucas investe em uma imagem de disposição, proximidade e leveza. É um político que aparece sorrindo, praticando atividades físicas, cercado por jovens e utilizando uma linguagem muito próxima da estética das redes sociais. Não por acaso, surgiram páginas de apoiadores destacando sua imagem e seus atributos físicos, um fenômeno que lembra estratégias já observadas em outras campanhas brasileiras. Isso não substitui propostas, mas ajuda a construir percepção.
Ao mesmo tempo, há um movimento interessante em seu discurso. Se nas redes a imagem é de um governador jovem, nas entrevistas o tom costuma ser mais firme. Frases como “eu sou o governador, a caneta está comigo, as decisões são minhas” parecem responder à necessidade de afirmar liderança e autonomia.
Se conseguir convencer o eleitor de que representa continuidade sem depender da imagem do antecessor ou de terceiros, terá resolvido aquele que talvez seja o maior desafio narrativo da sua candidatura.
E enquanto outros atores políticos ainda discutiam se seriam candidatos, Efraim Filho parecia onipresente. Sua agenda se espalhava por eventos políticos, religiosos e municipais em todas as regiões do estado. Esse tipo de estratégia busca construir um ativo fundamental em campanhas majoritárias: a lembrança espontânea.
O primeiro acerto de Efraim foi entender que eleição para governador não começa no ano da eleição. Efraim fez a lição de casa direitinho.
Muitos candidatos apresentam propostas e depois tentam convencer o eleitor de que são viáveis. Efraim fez o caminho inverso: primeiro consolidou sua candidatura, depois trabalhou para torná-la competitiva e só então começou a apresentar um projeto de governo.
A lógica é simples: dificilmente o eleitor presta atenção nas propostas de alguém que ele nem acredita que será candidato.
Outro movimento importante foi sua aproximação com o campo bolsonarista e a filiação ao PL, reposicionando sua identidade política e reforçando bandeiras alinhadas ao seu campo ideológico.
Afinal, toda campanha competitiva costuma escolher um tema para chamar de seu.
Ao que tudo indica, Efraim escolheu a segurança pública.
O evento “Paraíba Sem Medo” deixou isso evidente. Há um elemento narrativo interessante: em vez de falar apenas em segurança pública, ele transforma um problema social em um conceito político. O foco deixa de ser a polícia e passa a ser o sentimento. A ideia de medo. Em seguida, apresenta o contraponto: “Paraíba Sem Medo.”
É uma mensagem simples, fácil de repetir e memorizar.
Outro aspecto que chama atenção é que Efraim procura construir uma narrativa de projeto, e não apenas de oposição. Em vez de limitar seu discurso às críticas ao governo, busca apresentar o estado que pretende construir.
Essa é uma diferença importante entre comunicar uma oposição e comunicar uma candidatura.
Apesar dessa consistência, existe um desafio evidente. As pesquisas mostram que Efraim consolidou um eleitorado competitivo, mas ainda precisa ampliar sua base para disputar a liderança. Isso exigirá dialogar além do eleitor conservador sem perder a identidade que vem construindo.
Talvez o caso de Efraim seja um dos mais interessantes desta eleição porque mostra que uma campanha pode começar muito antes da propaganda eleitoral. Primeiro ele ocupou espaços, depois consolidou sua identidade política e só então passou a apresentar um projeto de governo.
A disputa pelo governo do estado da Paraíba é particularmente interessante porque ela não é apenas ideológica. Ela é, sobretudo, uma disputa entre três modelos diferentes de liderança política. E, na minha visão, quem conseguir construir a narrativa mais convincente sobre “o futuro da Paraíba” terá vantagem maior do que quem simplesmente apresentar mais obras ou apoios partidários.

