Existe um tipo de poder que dispensa o gesto de se anunciar. Ele não desfila em uniformes, não edita decretos, não ocupa palácios — instala-se nos gestos mais banais da vida contemporânea, na forma como nos informamos, nos deslocamos, trabalhamos e, cada vez mais, na forma como compreendemos o que nos é devido como cidadãos e o que devemos uns aos outros como sociedade. É um poder que se legitimou não pela força nem pelo voto, mas por algo estruturalmente mais difícil de contestar: pela utilidade. Foi precisamente por isso que Evgeny Morozov, em “Big Tech: A Ascensão dos Dados e a Morte da Política”, recusou o conforto das críticas mais óbvias às grandes plataformas digitais para formular uma pergunta mais incômoda — não o que a tecnologia faz conosco, mas o que deliberadamente deixamos de fazer quando a elegemos árbitro da vida coletiva.
Evgeny Morozov passou anos tentando nos fazer ouvir essa pergunta. Em “Big Tech: A Ascensão dos Dados e a Morte da Política”, o bielorrusso radicado nos Estados Unidos não se contentou em criticar o poder das grandes plataformas digitais — exercício que, convenhamos, já se tornou quase banal nos círculos intelectuais. Morozov foi mais fundo e mais desconfortável: ele argumentou que o verdadeiro perigo da tecnologia hegemônica não está nos seus excessos, mas na sua filosofia. E essa filosofia tem um nome que soa inofensivo demais para o estrago que causa: solucionismo.
O solucionismo, na leitura de Morozov, é a crença de que todo problema humano pode ser decomposto em dados, processado por um algoritmo e respondido com uma solução técnica eficiente. É uma visão de mundo que transforma questões políticas — redistributivas, conflitivas, carregadas de valores — em problemas de engenharia à espera do engenheiro certo. O que parecia ser apenas uma postura ingênua de geeks do Vale do Silício revelou-se, com o tempo, uma ideologia poderosa o suficiente para reformatar as instituições democráticas a partir de dentro.
Pense no que aconteceu com a conversa pública no Brasil nos últimos anos. Não me refiro apenas à desinformação ou às câmaras de eco — esses são sintomas visíveis, quase palatáveis porque podem ser nomeados e combatidos com políticas públicas. Refiro-me a algo mais profundo: a gradual substituição do debate político pelo gerenciamento de dados. Quando uma plataforma decide, por critérios que ela mesma estabelece e que ninguém votou, o que você vai ler, com quem vai interagir e qual versão da realidade vai circular mais amplamente, ela está exercendo poder político sem passar por nenhum dos constrangimentos que o poder político deveria enfrentar numa democracia. Não há eleição, não há mandato, não há prestação de contas no sentido substantivo da palavra.
Morozov tinha um nome também para isso: a colonização da política pela lógica das plataformas. E o que torna o diagnóstico tão perturbador é que essa colonização acontece frequentemente com o consentimento entusiasmado dos próprios colonizados. Governos adoram o discurso da inovação tecnológica porque ele lhes oferece uma saída elegante para problemas que exigiriam escolhas politicamente custosas. É muito mais fácil anunciar um aplicativo de monitoramento da qualidade escolar do que enfrentar o sindicato dos professores, reformar o financiamento da educação pública e redistribuir recursos entre municípios ricos e pobres. O aplicativo fotografa bem. A reforma é lenta, conflituosa e ingrata.
O que Morozov percebeu, e que eu acho que ainda não digerimos adequadamente no Brasil, é que ao aceitar essa troca estamos fazendo algo muito mais grave do que terceirizar serviços públicos para empresas privadas — o que já seria grave o suficiente. Estamos terceirizando a própria gramática do que conta como problema e do que conta como solução. Quando você permite que o Google Maps defina a política de mobilidade de uma cidade, ou que o iFood defina a política trabalhista para entregadores, ou que o Nubank defina o que é inclusão financeira, você não está apenas privatizando serviços. Está deixando que atores privados, movidos pela lógica da acumulação e da escala, estabeleçam os termos nos quais a vida coletiva vai ser organizada.
E aqui chegamos ao ponto que considero mais urgente para o contexto brasileiro. Somos um país com desigualdades estruturais profundas, com um Estado que historicamente oscilou entre o abandono e o clientelismo, e com uma democracia jovem que ainda não consolidou plenamente seus mecanismos de controle e participação. Nesse ambiente, a sedução do solucionismo tecnológico é especialmente perigosa porque mimetiza o vocabulário do progresso enquanto aprofunda a exclusão de quem já estava excluído.
Os algoritmos de crédito que discriminam por CEP, os sistemas de reconhecimento facial que erram mais com rostos negros, as plataformas de emprego que reproduzem e amplificam preconceitos históricos — tudo isso não é bug. É, muitas vezes, a expressão fiel de uma sociedade estratificada que alimentou esses sistemas com os seus próprios dados enviesados.
A morte da política que Morozov anuncia no título de seu livro não chega com a brutalidade dos regimes que a história registrou em letras maiúsculas. Ela é outra coisa: é lenta, é confortável, e se apresenta sempre embrulhada em promessas de eficiência, conveniência e inovação. É uma morte por convencimento gradual — aos poucos nos deixamos persuadir de que a política é lenta demais, imprecisa demais, humana demais para dar conta de um mundo que exige respostas em milissegundos, e que o melhor que podemos fazer é ceder aos sistemas inteligentes o cuidado dos detalhes enquanto nos ocupamos com outras coisas.
O que essa resignação não nos diz é que a democracia nunca foi outra coisa senão a arte de disputar os detalhes. É nos detalhes que se decide quem tem acesso ao crédito e quem não tem, quem é vigiado e quem vigia, quem aparece no topo do feed e quem desaparece do debate público. Renunciar a essa disputa em nome da otimização não é modernizar a política — é dissolvê-la. E o que ocupa o espaço que ela deixa vazio não é a neutralidade técnica que nos prometem, mas o poder privado exercido sem mandato, sem contrato social e, sobretudo, sem a possibilidade real de ser contestado nas urnas.
Cid Gadelha e Xavier
